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11/6/2007-O professor Quick pergunta:
Valor Online - Por Stela Campos

Para Quick, a prevenção é um instrumento muito poderoso e que não é bem entendido por líderes e administradores

Apesar do sobrenome em inglês significar rapidez, o professor James Quick não costuma ter muita pressa no seu dia-a-dia. Especialista renomado no estudo do estresse, ele raramente usa o celular. "Quando alguém precisa falar comigo, marca uma hora por e-mail e liga", diz. "Não lido com pessoas em crise, então elas podem esperar", justifica.

 

Professor de comportamento organizacional da Univesidade do Texas, nos Estados Unidos, onde também dirige a Goolsby Leardership Academy, Quick é autor de 17 livros e mais de 100 artigos sobre estresse. Junto com o irmão, co-autor em algumas de suas obras, foi um dos criadores do termo "tecnoestresse" e é reconhecido com um dos pioneiros na implantação de sistemas de prevenção da doença.

 

No próximo dia 24, ele desembarca pela quinta vez no Brasil para participar do IX Fórum Internacional de Qualidade de Vida no Trabalho, que acontecerá entre os dias 26 e 28, em Porto Alegre. Quick comparecerá a convite do International Stress Management Association do Brasil (Isma-br).

 

Antes de mais uma incurs√£o no pa√≠s, Quick concedeu uma entrevista ao Valor , onde falou sobre o avan√ßo do estresse nos pa√≠ses onde a economia vai bem mas o emprego √© escasso, como no Brasil e na China. Disse ainda como gerencia o pr√≥prio tempo para ter uma vida mais tranq√ľila. A seguir alguns trechos:

 

Valor: Existem diferenças no nível de estresse das pessoas que trabalham nos países mais desenvolvidos e nos emergentes?

 

James Quick: Eu acho que existem algumas diferen√ßas sim. Nos EUA, ele √© um pouco maior do que o observado nas economias mais desenvolvidas da Europa. Na maioria dos pa√≠ses europeus hoje existe mais seguran√ßa em rela√ß√£o ao trabalho. A exce√ß√£o √© o Reino Unido. L√° a economia est√° mais pr√≥xima da americana, portanto, existem mais incertezas em rela√ß√£o ao emprego, o que faz toda diferen√ßa. Minha percep√ß√£o da China, onde j√° estive in√ļmeras vezes, e do Brasil, √© que existe muita competitividade por emprego, j√° que as economias cresceram de forma madura e estabilizada. Isso afeta o n√≠vel de estresse.

 

Valor: √Č poss√≠vel estimar quanto as empresas perdem por conta do n√≠vel de estresse dos empregados?

 

Quick: Tenho estudos que falam sobre o custo da sa√ļde ocupacional em ambientes de trabalho, que √© um dos grandes problemas globais. O International Labour Office (ILO), em Genebra, na Su√≠√ßa, estima que 2,2 milh√Ķes de pessoas por ano s√£o mortas em acidentes ou por doen√ßas no trabalho. O n√ļmero √© menor na Europa e em alguns pa√≠ses desenvolvidos. Tamb√©m sabemos que o risco √© maior nos pa√≠ses em desenvolvimento. Este n√ļmero, inclusive, deve estar subestimado pela dificuldade que temos em coletar esse tipo de dado.

 

Valor: Qual a relação entre o estresse e a violência?

 

Quick: Parte do problema da viol√™ncia √© o que vimos recentemente no incidente em Virg√≠nia Tech, quando um homem se matou e tirou mais 32 vidas. √Č um caso extremo de tirania, um alto n√≠vel de viol√™ncia. Ass√©dio √© a repeti√ß√£o de a√ß√Ķes perigosas para a sa√ļde praticadas por um chefe frio e ruim. Ele custa U$ 180 milh√Ķes por ano nos EUA, em tempo perdido e queda na produtividade.

 

Valor: As empresas hoje est√£o lidando melhor com o estresse?

 

Quick H√° alguns anos, a ind√ļstria farmac√™utica Astrazeneca est√° fazendo um bom trabalho, cuidando dos que eram psicologicamente ou fisicamente feridos no ambiente de trabalho. Existe um bom trabalho tamb√©m na For√ßa A√©rea dos EUA, onde foram reduzidas significativamente as taxas de suic√≠dio. Eles conseguiram isso atuando na preven√ß√£o da viol√™ncia, administrando os conflitos de uma maneira mais saud√°vel.

 

Valor: A prevenção então é a melhor arma contra o estresse?

 

Quick A preven√ß√£o √© um instrumento muito poderoso e n√£o √© bem entendido por l√≠deres e administradores. Isso porque ela vem da sa√ļde p√ļblica e n√£o das teorias de administra√ß√£o.

 

Valor: O senhor acredita que a nova gera√ß√£o que est√° chegando ao topo das organiza√ß√Ķes lida melhor com o estresse do que a anterior?

 

Quick Alguns sim, outros n√£o. Em toda gera√ß√£o temos l√≠deres bons e ruins. Eu acho que temos mais l√≠deres bons seguindo exemplos de outros bons l√≠deres e deixando a nova gera√ß√£o aprender com eles. Mas acho que a diferen√ßa √© que esta gera√ß√£o tem mais informa√ß√£o dispon√≠vel sobre o que s√£o as boas pr√°ticas do que as gera√ß√Ķes passadas. Proporcionalmente, estamos vendo mais l√≠deres saud√°veis. O diretor executivo da National Defense University de Washington estava me dizendo que na √°rea de defesa os executivos e militares, nos √ļltimos 20 anos, passaram por algumas mudan√ßas e se tornaram l√≠deres mais positivos. Eles n√£o bebem mais tanto, tomam contam de seu f√≠sico. Seus empregados est√£o melhores, foram beneficiados com isso.

 

Valor: A tecnologia hoje pode tomar conta da vida dos executivos. Existe até curso para curar a dependência do blackberry. Qual sua opinião sobre essa relação doentia com as aparatos tecnológicos?

 

Quick Eu n√£o conhe√ßo esse curso especificamente. Eu e meu irm√£o, que √© m√©dico e CEO de uma companhia de sa√ļde internacional, em Boston, escrevemos anos atr√°s um livro sobre o "tecnoestresse". O bom da tecnologia √© que podemos nos comunicar a qualquer hora, qualquer momento. Ent√£o s√£o boas e m√°s not√≠cias. Quando eu era chefe do nosso programa de PhD, por conta do fuso hor√°rio, tinha que acordar √†s duas da manh√£ para entrar em contato com o respons√°vel pela escola de neg√≥cios da Universidade do Kuwait. Eu ligava e voltava para a cama.

 

Valor: O senhor ainda faz coisas desse tipo?

 

Quick Acho que sou capaz de lidar melhor com essas situa√ß√Ķes hoje. Tenho momentos em que n√£o estou engajado com minha tecnologia. Uso o e-mail. Mas raramente o celular. Por um motivo simples, eu n√£o preciso estar dispon√≠vel. N√£o lido com pessoas em crise. Elas podem esperar ou planejar um hor√°rio para conversar comigo pelo telefone. N√£o preciso ter tanta pressa. Aprendi muito com meu pai, que era executivo de marketing. Quando ele se aposentou demos um microondas para ele para fazer o jantar mais r√°pido. Ele nos disse que n√£o tinha tanta pressa: "ainda posso cozinhar no forno".

 

Valor: O senhor acredita então que é uma questão de escolha?

 

Quick O que importa sobre a tecnologia √© que voc√™ n√£o deve deixar ela tomar conta de voc√™. Voc√™ deve tomar conta dela. √Č simples.

 



          
 

 
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