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2003 2003 ![]() 2005 2005 2007 2010 2012 2012 2014 2014
Um compromisso com a sociedade
Escrevemos estas linhas logo após o Senado da República ter
admitido o processo de impedimento da presidente da República, Dilma Rousseff.
Mas não somente esta Carta foi elaborada sobre os rapidamente mutantes cenários
da política e economia nacionais. Fizemos — Conselho Editorial, articulistas e
repórteres — o melhor esforço para tornar esta edição imune aos acontecimentos
conjunturais, de modo a proporcionar-lhe uma leitura proveitosa para se pensar a
retomada do desenvolvimento do país, independentemente do desfecho da crise que
o Brasil atravessa neste momento. A única garantia que podemos oferecer ao
leitor é uma Por Sinal que
aponta soluções para as mazelas que ora sofremos.
Não é mera coincidência que a matéria principal desta edição
trata de soluções para a crise. Em uma construção coletiva, avaliamos diversos
aspectos e delineamos caminhos para uma travessia dos escaninhos da recessão
para a via da prosperidade. Trilha que passa, necessariamente, pelo
fortalecimento da autoridade monetária como organismo de Estado, a serviço da
sociedade. Tema recorrente desde a fundação do Sinal, a regulamentação do artigo 192 da Constituição Federal de 1988 reveste-se de atual urgência: é preciso que o Banco Central seja dotado de autonomia operacional e financeira para bem executar a missão de Estado conjugada com as diretrizes conjunturais delegadas das urnas, que deve ser expandida para considerar, ao lado da estabilidade monetária e solidez e eficiência do sistema financeiro, as questões do crescimento econômico e pleno emprego, a fim de construir um Sistema Financeiro Cidadão.
A Lei 4.595 data de 1964 e não poderia abarcar tudo o que existe hoje, em termos de operações bancárias. Um dos fenômenos recentes, que merece cautela do regulador do sistema, são as fintechs, empresas que operam na internet e oferecem serviços complementares àqueles prestados pelos bancos, buscando reduzir custos para investidores e tomadores. O assunto é tratado aqui de forma prospectiva, para chamar a atenção para os riscos e oportunidades que oferece.
O entrevistado do mês é Sergio Mendonça, ex-secretário de
Relações do Trabalho do governo federal, hoje titular do Funcef. Na conversa, o
economista abordou aspectos das negociações salariais no serviço público e suas
perspectivas à frente da previdência complementar dos funcionários da empresa
pública. O procurador do Banco Central Lademir Gomes, mais votado nas carreiras
jurídicas para dirigir a AGU, ressalta em artigo suas razões para o
funcionamento da advocacia pública de Estado. Já o professor e jornalista Luis
Carrijo aborda o papel da comunicação nos relacionamentos modernos, com foco na
atividade sindical. Por fim, uma boa notícia: chega em livro a primeira parte da história do Sinal, contando a construção da luta dos funcionários do Banco Central até a promulgação da Constituição Cidadã e a fundação efetiva da entidade. Em breve, a edição eletrônica do volume poderá ser apreciada no portal do Sindicato.
Renovando nosso compromisso com o Brasil e a sociedade brasileira, desejamos a todos uma boa leitura.
SINDICATO NACIONAL DOS FUNCIONÁRIOS DO BANCO CENTRAL (SINAL)
CONSELHO NACIONAL BIÊNIO 2015/2017
Presidente
DIRETORIA EXECUTIVA NACIONAL BIÊNIO 2015/2017
Presidente
EXPEDIENTE ANO 14 NÚMERO 51 MAIO 2016
Por Sinal Revista do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central do Brasil
Conselho Editorial Aldomar Guimarães dos Santos, Clovis de Lima Barbosa Junior, Daro Marcos Piffer, Iso Sendacz, Mauro Cattabriga de Barros, Nehemias Monteiro Junior, Ricardo Luis Piccoli, Rubens Gandelman
Secretária: Sandra de Sousa Leal SCS Quadra 01 – Bloco G sala 401 – Térreo Ed. Baracat – Asa Sul – Cep 70.309-900 – Brasília – DF Telefone: (61) 3322-8208 nacional@sinal.org.br www.sinal.org.br Redação Coordenação-geral e edição: Flavia Cavalcanti (Letra Viva Comunicação)
Reportagem: Paulo Vasconcellos e Jefferson Guedes
llustrações: Claudio Duarte
Assessoria de Comunicação do Sinal Nacional: Rapport.
Permitida a reprodução das matérias, desde que citada a fonte. O Conselho Editorial não se responsabiliza pelas opiniões expressas nos artigos assinados. ![]()
OS CAMINHOS PARA SAIR DA RECESSÃO
O desfecho da crise política pode ser o primeiro passo para
o Brasil superar a crise econômica. A dúvida, volátil como o cenário brasileiro
PROJETO 192
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UM BC EM SINTONIA COM A SOCIEDADE
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BANCO CENTRAL E ADVOCACIA-GERAL DA UNIÃO:
EM BUSCA DA AUTONOMIA E DA BOA GOVERNANÇA
LADEMIR GOMES DA ROCHA
A experiência das democracias contemporâneas demonstra, em meio a
sobressaltos autoritários, que instituições importam. No caso brasileiro, o
segundo processo em impeachment desde a restauração democrática revela as
disfunções do presidencialismo de coalização, arranjo que repete os vícios da
tradição patrimonialista do Estado brasileiro, caracterizada pelo uso de
recursos públicos em proveito de interesses particularistas, sob a retórica do
“interesse público”. Duas instituições merecem análise detida, uma vez que suas
arquiteturas de governança atuais apresentam graves disfunções. Refirome ao
Banco Central do Brasil (BCB) e à Advocacia-Geral da União (AGU), instituições
indispensáveis à realização de valores e de objetivos fundamentais da vida
republicana, mas que andam a meio caminho entre o que são e o que deveriam ser.
Ao BCB confiamos proteger a moeda e garantir a higidez e o regular funcionamento
do sistema financeiro. À AGU, por sua vez, a condução da advocacia de Estado no
âmbito federal, o que envolve prestar consultoria e assessoramento jurídico à
União (abrangendo os três Poderes e não apenas o Executivo, bem como suas
fundações e autarquias), defender o interesse público em juízo e fora dele e
realizar o controle interno de juridicidade.
A realização plena dessas atribuições exige a construção de regras e de
procedimentos que assegurem fidelidade a suas missões institucionais, o que se
realiza em duas dimensões: no plano externo, por meio da implementação da
autonomia institucional, contrabalançada por deveres de transparência e
accountability; no âmbito interno, por meio do desenvolvimento e da
implementação de estruturas e de políticas de governança que assegurem o
alinhamento dos esforços dos membros das instituições com a parcela do interesse
público que lhes é confiada.
Ao contrário do que pensa o senso comum, não há na defesa da autonomia
institucional qualquer violação ao princípio democrático, pois não se trata de
transferir as escolhas políticas para órgãos não investidos de legitimidade
popular, mas de divisão de atribuições entre as instâncias deliberativas —
governo e parlamento — e os entes e órgãos que, grosso modo, realizam funções de
execução de políticas públicas (caso do BCB) e da interpretação e aplicação da
lei e do Direito no âmbito das atividades realizadas pelo Estado (caso da AGU).
No tocante à autonomia do BCB, há, além de aspectos pragmáticos, que levam em
consideração o êxito relativo das experiências dos países que conferiram
autonomia formal aos seus bancos centrais, questões de ordem conceitual. Não
cabe à autoridade monetária fixar as metas políticas, nem desenhar os
instrumentos que poderá manejar na execução de suas atribuições legais, mas às
autoridades democraticamente legitimadas. Nesse contexto, autonomia
institucional (mandato, orçamento, “contratação” de metas) e independência
técnica dos membros da instituição são ferramentas da realização de objetivos e
metas externamente fixados.
Por sua vez, a AGU debatese com grave “crise de identidade”. Concebida para ser
instituição transversal de consultoria e representação jurídica, a AGU tem a
realização plena de sua missão institucional obstaculizada pela sua redução a
órgão de advocacia de governo, situação que ficou evidenciada no episódio da
atuação do atual advogado-geral da União, ministro José Eduardo Cardozo, no
processo de impeachment. A propósito, as entidades representativas das carreiras
da advocacia pública federal emitiram nota de repúdio por discordarem do uso
político-partidário da estrutura da AGU, em detrimento da missão institucional
conferida à instituição pela Constituição Federal de 19881.
A AGU representa a União, compreendendo os três Poderes e os distintos órgãos e
instituições que a integram. Não se entende, portanto, como o chefe da
instituição possa atuar contra as deliberações de um Poder (no caso, a
deliberação da Câmara dos Deputados que acolheu o processo de impeachment),
ainda que para atender às garantias de ampla defesa e contraditório do chefe de
outro Poder. Melhor seria um arranjo que assegurasse a equidistância do
advogado--geral da União em relação aos Poderes que ele igualmente deve atender,
atribuindo a órgãos de advocacia de “gabinete”, ligados às chefias de cada
Poder, a representação das autoridades, sem prejuízo de sua inserção no chamado
“sistema AGU”.
Ademais, o modelo da advocacia de Estado é incompatível com a lógica que
confere à AGU status de Ministério do Poder Executivo. Conceitualmente,
ministérios são correias de transmissão do Poder Executivo, exercendo funções
específicas de condução do governo em seus respectivos âmbitos de atuação
(economia, saúde, assistência e seguridade social, educação, cultura, justiça,
etc.). A “Advocacia de Estado” não se enquadra neste conceito, nem na noção
estrita de “Administração”, pois não lhe cabe fazer as escolhas discricionárias
que competem aos gestores públicos. Seu papel é balizar juridicamente o campo
das escolhas legítimas, fixando os limites e as possibilidades que as leis e o
Direito oferecem.
No que toca à dimensão interna da condução gerencial do BCB e da AGU, ambas as
instituições sofrem com a transposição de esquemas administrativos
tradicionais. No BCB como um todo, e na Procuradoria-Geral do Banco Central (PGBC)
em particular, a estrutura de governança, o desenho dos processos de trabalho e
a cultura institucional, assentada na hipertrofia do hierarquismo e do
centralismo decisório, não guardam sintonia com a necessidade de atuação
independente e, no caso específico dos advogados públicos, com os ditames do
Código de Ética e Disciplina da OAB.
Apesar da retórica modernizante, o planejamento estratégico do Banco Central não
foge dos limites traçados pelo caráter centrípeto e descendente da gestão
tradicional. Apesar de algumas mudanças periféricas, os mecanismos de mando
obediência permanecem inalterados e se refletem em processos de trabalho
excessivamente centralizados e hierarquizados, em critérios e processos de
designação para funções comissionadas pouco transparentes, em chefes “eternos”,
na alocação arbitrária de estruturas gerenciais e na falta de um efetivo diálogo
intrainstitucional.
Enfim, a autonomia institucional do BCB e da AGU e a independência técnica de
seus membros, conjugada com estruturas e práticas de governança transparentes e
dialógicas, são passos necessários ao estabelecimento da confiança da população
na condução de seus interesses jurídicos e econômicos. Resta saber como os
representantes da sociedade responderão a isso.
(*) Veja a íntegra da Nota de Repúdio no site da APBC — Associação dos Procuradores do Banco Central do Brasil:.
(*) LADEMIR GOMES DA ROCHA é procurador do Banco Central.
ENTREVISTA SÉRGIO MENDONÇA, PRESIDENTE DA FUNCEF
POR UMA GESTÃO PÚBLICA DE QUALIDADE
ENTREVISTA SENADOR LINDBERGH FARIAS
Sérgio Mendonça é um velho conhecido dos servidores. Na condição
de secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, no governo
Lula, e de secretário de Relações de Trabalho, a partir de 2012, no governo
Dilma, ele teve a espinhosa tarefa de intermediar conflitos e comandar o
processo de negociação salarial na esfera federal. Foram 12 anos de uma relação
tensa, mas respeitosa, com idas e vindas, pressão dos dois lados, conquistas
importantes, mas perdas também significativas. Na mesa de negociação, as
demandas de um movimento sindical forte e organizado, liderado pelas carreiras
de Estado.
Presidente da Funcef desde o dia 4 de abril, o economista recebeu a Por Sinal em
Brasília, no dia 2 de maio, 15 dias depois da votação que autorizou a
instauração de processo de impeachment da presidente Dilma, na Câmara dos
Deputados. Na conversa, que contou com a participação do presidente do Sinal,
Daro Piffer, e do jornalista Samuel Oliveira, também do Sinal, Sérgio defendeu,
com números, as ações do governo ao longo desses 12 anos, dirigidas ao
fortalecimento do Estado e à valorização do serviço público: “Nesse período,
foram contratados 250 mil servidores públicos por concurso. Isso já revela a
opção por recompor a força de trabalho e fortalecer diversas instituições do
Estado brasileiro.” Questionado sobre as perdas salariais a partir de 2011,
reconheceu que, por conta da crise econômica, o governo Dilma teve dificuldades
em manter o poder aquisitivo, desrespeitando o compromisso de recompor os
salários dos servidores.
Flavia Cavalcanti
ENTREVISTA
Em 2004, a Por Sinal o entrevistou, logo depois de ter assumido a Secretaria de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento. A primeira pergunta que fizemos foi sobre o projeto do governo Lula para a valorização do serviço público. Na sua resposta, você deixou claro que era um compromisso do governo Lula a construção de um Estado forte. E que, para isso, a nova gestão precisava olhar o Estado como um ente estratégico, capaz de promover políticas públicas que só poderiam ser feitas com um serviço público de qualidade e servidores capacitados. Tanto tempo depois, mais de 12 anos, qual o legado que o governo deixa nesse sentido? Na sua avaliação, quais os acertos e quais os erros ou dificuldades?
É importante responder, primeiro, com alguns dados. Nesses 12 anos, foram contratados 250 mil servidores públicos por concurso. Isso já revela a opção do governo por recompor a força de trabalho e fortalecer diversas instituições do Estado brasileiro. Estou falando no plano federal, que é o foco aqui. É óbvio que hoje ainda temos problemas. Algumas instituições continuam fragilizadas e precisam de reforço. Mas, de maneira geral, esse número expressivo na contratação de servidores mostra uma coerência dessa política de fortalecer o Estado e a burocracia federal. Dos 250 mil servidores contratados, 60% foram na área de educação, o que também mostra um olhar forte para a política de educação, que foi a contrapartida da expansão das universidades federais e dos institutos federais de ensino espalhados pelo país. Aproximadamente 500 institutos federais foram criados, contribuindo para reforçar vocações econômicas, culturais, sociais das diversas regiões ou estimular novas áreas de desenvolvimento buscando a redução da ainda expressiva desigualdade regional brasileira. A outra face da valorização do serviço público federal, que perdeu intensidade nos últimos anos, mas que durante o primeiro ciclo de governo foi muito significativa, foi a recuperação salarial.
Você se refere ao governo Lula, não?
É, principalmente até 2010, a recuperação foi muito mais forte. De 2011 para cá,
houve a tentativa de se preservar o poder aquisitivo, que tinha sido elevado.
Mas é evidente que se você olha só de 2011 para cá, de fato tivemos pequenas
perdas por conta da inflação, principalmente de 2011 a 2015. Mas os reajustes
foram dados. Agora têm outros reajustes contratados que vão depender de
avaliação do Congresso Nacional.
Como você avalia esse segundo momento? Por que o governo Dilma não continuou
essa política de recomposição salarial?
Acho que não era possível continuar naquele ritmo de recuperação.
Foi muito expressivo! Um período favorável de arrecadação, de crescimento
econômico e de compromisso com a recomposição salarial. Os servidores vinham de
um período longo, oito anos de arrocho. E o compromisso do Lula era essa
recomposição, que se expressou em duas dimensões: na força de trabalho e na
recuperação salarial. A Dilma não tinha condições de manter aquele ritmo de
aceleração dos salários, a não ser que fizesse escolhas pontuais de áreas
estratégicas e segurasse o resto, preservando o poder aquisitivo. Mesmo assim,
em 2011, houve uma negociação que envolveu aproximadamente 800 mil servidores,
que abrangeu todos os setores, incluindo a área da educação e o chamado
carreirão. Depois, em 2012, ocorreu uma nova negociação com o conjunto dos
servidores federais, com mais ou menos os mesmos parâmetros para todas as categorias, mas que ficou um pouco abaixo da inflação acumulada do período. Então,
se você olhar o poder aquisitivo hoje, não de 2016, mas do final de 2015, ele é
um pouco menor do que o de 2011. Mas se olhar para 2003, com os dados que
dispomos, a grande maioria das categorias, com uma ou outra exceção, teve ou
preservação salarial nesses 12 anos, ou, a maior parte, recuperação acima da
inflação.
Gostaria de comentar duas coisas que você falou. Primeiro: a expansão da
educação. O governo, de fato, estabeleceu melhoria na política de educação, só
que a expansão foi em grande parte quantitativa. Houve uma expansão de escolas,
de universidades, novas contratações de professores. Mas não houve, pelo menos
na média, um ganho nos salários dos professores. Por que isso? Segundo: uma vez
que foi feita uma recuperação muito grande da massa salarial do servidor público
até 2010, por que, de 2010 para cá não se conseguiu, pelo menos, a manutenção
desse poder aquisitivo? Na realidade, nos últimos anos, houve queda do poder
aquisitivo geral. Lembro-me de uma entrevista do ministro Mantega na qual ele
dizia: “Agora vamos preservar o poder aquisitivo do servidor público.” Recuperar
e depois preservar. Foi recuperado, mas não estamos conseguindo essa
preservação.
Primeiro, porque eu acho que a inflação fugiu um pouco daquilo que se esperava.
Quando fizemos a negociação, em 2012, estimávamos que a inflação ficaria muito
próxima do centro da meta. Tanto é que a ideia dos reajustes de 2013, 2014 e
2015 em torno de 5%, com inflação esperada de 4,5%, permitiria preservar o poder
aquisitivo dos salários. Mas a inflação foi acima e isso comprometeu um pouco a
preservação do poder aquisitivo, tendo 2011 como referência. O ponto em que os
sindicatos e governo divergem, e é legítimo que divirjam, é que as entidades
passaram a utilizar o ano de 2011 como referência para o cálculo do poder
aquisitivo. E o governo sempre tomou 2003 como referência para frente,
considerando a massa salarial como um todo, sua expansão, porque é a massa de
salários que deve ser considerada para medir a relação da despesa de pessoal com
o PIB, que é uma grandeza importante, para não comprometer o equilíbrio fiscal.
As entidades sindicais olham o copo pela metade, dizendo que ele está vazio; o
governo federal diz que ele está mais cheio do que vazio. Temos essa
divergência.

E no caso dos professores?
Aí temos uma questão de interpretação da carreira dos professores. Houve
fortíssima valorização dos professores doutores. Se você examinar a evolução do
salário real dos doutores, ela é muito significativa, bem acima da inflação. É
claro que se considerar a carreira como um todo, o piso salarial, talvez tenha
uma discussão sobre a preservação ou não do poder aquisitivo. Agora, se você
comparar o que recebia o professor doutor em 2003 e o que recebe hoje, do meio
para o fim da carreira, a evolução é significativa. E, mesmo assim, o piso
salarial do professor doutor hoje é R$ 8.500, sendo que 95% dos profissionais
que entram nas universidades são doutores. Considerando que o salário médio do
conjunto do país, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios),
é de aproximadamente R$ 2.000, o professor em início de carreira ganha quatro
vezes o salário médio do país. É muito acima do que acontece em qualquer outro
país! O que acontece é que há carreiras na administração pública federal com
patamares salariais de entrada muito mais altos, como é o caso do Banco Central,
da Receita Federal, da Polícia Federal, da carreira de gestão, enfim. Mas são
carreiras pequenas. A carreira dos Docentes tem 200 mil servidores. Como é que
você consegue elevar o patamar salarial para muito acima da média salarial do
país, para uma carreira de 200 mil pessoas? É complicado. O Banco Central tem 5
mil funcionários, a Polícia Federal 20 mil, e mesmo assim são os delegados, uns
2,5 mil, que ganham salário mais alto. Claro, com carreiras menores, você tem
possibilidade de fazer uma política salarial, de remuneração, mais agressiva.
E a situação das carreiras de Estado?
Nesses 13 anos a política de remuneração do governo federal não atingiu o
objetivo de diminuir o leque salarial. Hoje, o leque salarial é igual ou até
superior ao que era em 2003, dependendo das comparações que você faz. As
carreiras de Estado são muito fortes e organizadas. Pressionam para elevar o
piso de suas carreiras. Houve a ideia de que a Receita estava em um patamar
superior, junto com a Polícia Federal, com os delegados. Mas as demais carreiras
conseguiram se aproximar da Receita, por mérito delas, tanto pela disputa
sindical quanto pelas negociações dentro do governo, e isso implicou em um
impacto significativo nas despesas de pessoal. Mais de cem mil servidores
subiram para um patamar superior de entrada. Essa situação dificulta manter esse
ritmo daqui pra frente. Por exemplo, vou citar um caso que me lembro de cabeça.
Um auditor fiscal entra hoje ganhando R$ 14 mil. Em um país com a nossa
distribuição de renda, uma pessoa entrar ganhando R$ 14 mil é um salário
extraordinário! Você pode atrair os melhores quadros para a administração pública federal e, de fato, atrai. Quem passa em um concurso hoje são quadros que
se formam nas melhores universidades, fazem cursos para passar nesses concursos,
etc.
O que precisamos é transformar esses novos servidores em servidores públicos
vocacionados. E aí eu já estou antecipando outra agenda, que é uma discussão que
existe no Banco Central e em outras áreas da administração pública. Eu não tenho
nenhuma dúvida de que a administração pública federal paga hoje os melhores
salários do Brasil. Disparado. Mesmo com perdas de 2011 para cá, que eu não vou
negar. Esse grupo de cem mil servidores, as chamadas carreiras de Estado, tem um
patamar salarial muito mais alto do que a média. Eu sei que o Sinal discorda,
nós já discordamos muito, mas sou obrigado a defender essa visão que temos.
Do ponto de vista da qualidade da gestão pública, o que foi feito?
Não vejo dificuldade de atrair excelentes quadros para a administração federal
diante dessa política de valorização que foi feita, mas o problema é como
transformamos isso em uma gestão pública de qualidade. Esse passo não foi dado,
inclusive pelo governo, nesses anos todos. Ainda falta esse importante passo. É
claro que ao instalar um instituto, uma universidade, em uma região menos
desenvolvida, você já dá um choque positivo, de avanço para aquela região, mas
não é suficiente. É apenas quantitativo, se você não der também infraestrutura,
boas condições de trabalho, etc. O desafio na educação é de qualidade, garantir
que a infraestrutura venha junto, que os laboratórios estejam equipados, que
não se tenha perda salarial, que se formem equipes, porque esses 60% não foram
só professores, foram técnicos administrativos, técnicos de laboratório, quase
todos de nível superior, que são as carreiras de apoio à docência e à pesquisa
na universidade. Se isso se perder, corremos um risco de retrocesso bastante
razoável. Essa é uma tarefa que eu diria que não está completa.
O que concretamente o governo não fez para garantir a qualidade da gestão
pública?
Na minha avaliação, faltou sintonia fina nesse debate. Tivemos um momento muito
favorável, de expansão, sem que houvesse a reflexão mais acabada sobre a questão
da qualidade. Acho que isso não valeu para casos como o do Banco Central, ou
instituições menores. Valeu para a área da educação, que é uma massa gigante.
Nesses 12 anos, desses 250 mil novos servidores, 150 mil foram para a área da
educação. Talvez pudéssemos ter tido uma expansão um pouco menor, em termos
espaciais, e reforçado mais outras frentes. Estou falando sem ser especialista
na área. Mas, hoje, por exemplo, em função da queda de arrecadação e da
recessão. há um enorme desafio para sustentar com a qualidade desejada a
expansão do sistema federal de ensino.
O sentimento que se tem entre os leigos é que a educação, de maneira geral,
não mereceu uma atenção especial deste governo.
Discordo dessa visão. É difícil enxergar tudo que foi feito. Dirigentes do MEC
relatam mudanças expressivas em várias regiões do Brasil, que, para variar, não
é aquilo que aparece na grande imprensa. Você vê no interior do Brasil, nas
cidades médias, principalmente, como a instalação dos institutos federais
influencia a realidade local, como existe uma articulação com as forças
produtivas locais. Então, seria preciso ter um olhar aprofundado sobre isso. Não
estou negando que existam problemas, claro que existem. Está faltando dinheiro
e, de fato, corre-se o risco de o sistema não se sustentar se o governo não
continuar investindo recursos. Desde 2003, o número de alunos nas universidades
e institutos dobrou. Eram cerca de 600 mil (talvez precise checar melhor esse
número) e agora temos um milhão e duzentas mil vagas no sistema federal de
ensino! Foram dadas oportunidades para pessoas que não tinham. Isso é uma
conquista gigante. É fantástico.
Houve essa expansão nas áreas atendidas pelo governo, mas houve também um
esvaziamento do Estado, principalmente nas fiscalizações. Todos os órgãos
fiscalizatórios — Receita, Banco Central, Controladoria-Geral da União, por
exemplo — reclamam de perda de quadros, essencialmente em atividades de controle
do Estado junto à iniciativa privada e à população. Esse não é um ponto
importante em que o governo deveria ter dado uma atenção especial?
De novo, neste caso, é uma leitura do copo pela metade. Embora eu insista nesta
imagem, quem trabalha no governo, na execução dos programas e das políticas ,
tem a sensação de que os órgãos de controle estão mais estruturados do que os de
execução, porque gasta parcela expressiva do seu tempo respondendo à CGU, ao
TCU, ao Ministério Público. Não falo do Banco Central, porque é um órgão de
regulação específico do sistema financeiro nacional e de controle do setor
privado. Mas, na Administração Federal, tem-se a sensação de que se
hipertrofiaram os órgãos de controle. Por exemplo, veja o caso de um órgão como
o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes). Os engenheiros
mais experientes passam nos concursos do TCU, do Senado, da Câmara, da CGU para
fiscalizar os engenheiros juniores que entram para fazer obras no Dnit. Não tem
Estado que funcione assim! Ou então você entrega para a iniciativa privada,
acaba com o Dnit, e transfere para a empresa privada a realização integral das
obras. Esquece o Estado como realizador de obras. Por quê? Porque os engenheiros
mais experientes estão lá no Tribunal de Contas fiscalizando, estão no Senado,
na CGU, ou na agência reguladora. Então, falta servidor nesses órgãos? Talvez
falte. A sociedade tornou-se muito complexa e as demandas de uma sociedade cada
vez mais informada são mais fortes sobre o conjunto de atividades do Estado,
sobre o sistema financeiro, telecomunicações, energia elétrica, transporte. Com
isso, de fato, exige-se mais regulação, mais controle, e aí é possível que falte
servidor. Mas posso te garantir que está faltando bem mais gente nas áreas de
execução, do que nas áreas que controlam, fiscalizam ou regulam as atividades de
Estado ou das concessões à iniciativa privada.
Você acha que essa é uma tendência que está se fortalecendo dentro da
administração pública?
Como a obra de fortalecimento do Estado não está completa, sempre falando no
plano federal, acho que existe um risco de retrocesso do tipo: “Muito bem,
botamos essas pessoas, essa quantidade grande de servidores públicos e cadê a
melhoria da gestão pública?” O Estado está melhor? Na área da educação, há
problema de gestão mesmo. Nós fortalecemos quantitativamente o Estado, e a
grande tarefa é como dar qualidade maior na gestão pública. Isso ainda está por
ser feito. Eu acho que esse governo não conseguiu entregar a melhoria da gestão
pública esperada pela sociedade. Claro que aí você pode separar as joias da
coroa. Por exemplo, o Banco Central é uma instituição sólida. Pode estar
faltando gente, mas é uma instituição sólida. Tem uma gestão sólida. A Fundação
Oswaldo Cruz é uma joia da coroa, certo? A Receita Federal, a Polícia Federal
têm carências, mas também são joias da coroa. Denomino joias da coroa as
organizações do Estado que melhor funcionam.
São áreas onde o sindicalismo é forte.
É. E são órgãos pequenos, comparativamente ao tamanho do Estado. A Receita não é
tão pequena, é relativamente grande, 50 mil servidores, dos quais 20 mil na
ativa. Estamos diante deste desafio de entregar uma gestão pública melhor, e aí
penso na saúde e na educação. Se você olhar para estados e municípios, também na
segurança pública. O Estado brasileiro e a sociedade brasileira vão se colocar
diante desse desafio. As pessoas que foram para as ruas em 2013, parcela
expressiva daquele povo está querendo mais Estado. Serviço com qualidade
melhor, que significa mais Estado e não menos, como os meios de comunicação
estão querendo nos fazer crer com essa conversa de que é hora de enxugar.
Enxugar coisa nenhuma! As pessoas querem mais serviços, e serviços de melhor
qualidade. Um Estado mais eficiente.
Mais Estado, mas não uma estrutura inchada, pesada, inoperante.
Tem muita gente que está entrando na administração pública só para ganhar bons
salários. Essa gente ainda não tem vocação para o serviço público. Então, se não
for feita uma gestão pública que ganhe corações e mentes desses servidores, vai
ter muita gente frustrada. Eles estão lá ganhando um salário bom, melhor do que
no setor privado, e podem se transformar em servidores descontentes porque não
fazem o que querem, não têm vocação para o serviço público. Porque é diferente
ser servidor público e ser um trabalhador do setor privado. Eu acho que se não
for feito um trabalho de formação abrangente, voltado para o compromisso com o
serviço público, de investimento na vocação, nós talvez nos frustremos muito com
os resultados que a gestão pública apresente a longo prazo.
Antigamente, ser servidor público era servir bem à sociedade. O servidor se
sentia orgulhoso da sua profissão. Hoje, a entrada no serviço público virou um
negócio para as escolas e os cursinhos — “Vamos lá porque paga bem.” Na área
jurídica, além dos salários, tem a questão da estabilidade, principalmente num
momento de instabilidade nacional.
Hoje, supostamente, você tem um material humano com potencial enorme. As
pessoas que entraram na administração pública são qualificadas, mas isso pode
virar um problema, porque são muito bem formadas e podem não se dedicar
adequadamente àministração na linha do que vocês falaram, de servir ao público.
E, como eu disse, separando no plano federal as joias da coroa, que funcionam
bem, nós temos um problema sério na saúde, na educação. Eu diria que, no caso da
educação, é mais sério no ensino fundamental e no ensino médio, responsabilidade
dos estados e municípios.
Mas o MEC não é responsável pelas diretrizes de toda a política educacional?
Sim, pelas diretrizes. Mas aí temos outra tarefa. Precisamos rever o pacto
federativo porque a União não dá conta. Na verdade, se conseguíssemos chegar a
um patamar de juros mais baixos, macroeconomicamente falando, talvez pudéssemos
pensar em uma redistribuição dos recursos para estados e municípios, como foi o
desenho da Constituição de 1988. Talvez esta seja uma das questões centrais. Se
a gente não redefinir o pacto federativo e melhorar a qualidade da educação, da
saúde nos municípios e nos estados, não vamos dar o salto de qualidade na gestão
pública. E ninguém governa mais sem ter melhoria na gestão pública. Vai ser
pressão em cima de pressão.
Muita gente que entra no BC e acaba trabalhando em áreas meio, reclama um
pouco. Pensava que ia decidir a política econômica e acaba fazendo pagamento de
pessoal.
O Banco Central é uma instituição onde se tem condições de vocacionar mais os
servidores do que em outras áreas. Creio que, com a mudança de governo (caso o
impeachment seja aceito), é possível que ocorra, na visão do governo que
porventura assuma, uma reorientação do papel do Estado na direção de menos
Estado e mais iniciativa privada, vai se colocar uma questão interessante para
esses servidores que entraram na administração pública federal nos governos
Lula e Dilma. Com um freio na contratação de novos servidores, não serão criadas
tantas oportunidades de mudanças para outras áreas, outros órgãos. Esse freio de
arrumação será dolorido e exigirá mais atenção para a gestão, para a eficiência.
Como conseguir mais eficiência na gestão pública?
Bom, sobre isso temos alguns dogmas, algumas platitudes. Fazer uma administração
com resultados, voltada para a eficiência e efetividade, não é novidade, mas
você tem que pegar o touro na unha. Hoje, a forma de aumentar produtividade nos
cargos mais altos, gerenciais, é dando uma função comissionada. É
impressionante. Tem servidor que passa em um concurso de um cargo de alto nível,
e se não ganha um cargo comissionado, não trabalha como poderia. Por isso, digo
que essa situação de escassez de recursos que vamos viver vai ajudar a que se
olhe mais para a gestão pública. Ninguém, em tese, tem um time tão bom como a
administração pública federal, com esses servidores que ingressaram através de
concursos públicos. Mas, claro, temos problemas. Como no caso da expansão das
universidades, porque, de fato, se falta infraestrutura, pode ter o melhor
menino lá na Paraíba, em Campina Grande, que ele não vai dar conta, ele vai
embora, não vai ficar lá se não for criando um centro que se expanda. Sempre
cito a expansão da educação, pela importância da área, mas isso se dá em
diversas áreas. Eu gostaria de voltar a falar com vocês daqui a uns três, quatro
anos, para a gente ver o que significou esse freio de arrumação do ponto de
vista da gestão pública.
Durante a entrevista falamos do fortalecimento do Estado e a valorização
salarial dos servidores e apontamos algumas coisas que podiam avançar mais. Só
que a pauta não é só a questão salarial. Com relação a direitos, à Convenção
151, o que faltou avançar? Lembrando que você trabalhou exatamente nessa pasta
que cuida da relação entre governo e servidor?
Infelizmente nós não conseguimos avançar o suficiente no debate sobre a
Convenção 151 da OIT. Talvez tenha faltado, do lado do governo, uma priorização
do tema, mas também há que se reconhecer que existem muitas resistências em
diversas áreas para se implantar um processo institucionalizado de negociação
coletiva.
A resistência é só federal ?
Não. A resistência está principalmente nos estados e municípios. Uma parte
grande dos estados e municípios não quer esse debate, porque estabelecer uma
mesa de diálogo em que o sindicato tenha importância para a gestão significa
redução de poder dos governantes. Especialmente se você pegar uma prefeitura e
botar lá o sindicato do servidor público para negociar. O prefeito não vai
querer saber disso. E isso acontece também no Congresso Nacional e no setor
privado. No próprio governo federal há forças contrárias. Convenhamos: a
negociação organiza a relação do Estado com os servidores, dá transparência. Ela
reforça a transparência sobre as condições de trabalho, sobre os salários no
serviço público federal. Para muita gente, para muitas forças, isso não
interessa. Mas, sobre essa questão, acho que é uma dívida parcial do governo
federal. Não dependia só do governo federal; mas talvez se ele tivesse se
empenhado mais, poderiamos ter avançado nesse debate da institucionalização da
negociação, que tem a convenção da OIT como referência.
E o direito de greve para o servidor?
Esta é outra questão delicada. Faz parte de todo o sistema de relações de
trabalho. Creio que os sindicatos agora vão enfrentar essa discussão com
dificuldade. Não é nada simples, porque desde 1988 não se conseguiu regulamentar
esse direito. Em 2007 o Supremo Tribunal Federal estendeu a Lei 7.789/89 (lei de
greve do setor privado), naquilo que couber, ao setor público, e o que se tem
visto é que o Ministério Público e o Judiciário estão atuando com competência na
questão do exercício do direito de greve no serviço público. É por isso que uma
lei de greve razoável seria, hoje, mais importante para os sindicatos do que a
imprevisibilidade das ações e decisões do Ministério Público e do Judiciário.
Sem a elaboração de uma lei de greve para o setor público, há uma tendência a
restringir fortemente o exercício do direito de greve previsto na
Constituição. Que vale para a União, os estados e os municípios. Na minha
avaliação, vamos viver um momento bem complicado daqui pra frente, e a tendência
é esse conflito se acirrar. Não sei o quanto a organização dos servidores vai
ser capaz de sustentar esse conflito, mas imagino que as decisões judiciais, sem
ter uma regulamentação de lei de greve, poderão ser bastante desfavoráveis ao
movimento dos servidores públicos.
Mudando um pouquinho o foco, vamos falar da última negociação salarial de
2015. No início, o governo tinha uma proposta de negociação bem definida, mas no
meio do caminho aconteceram muitas interferências, principalmente de áreas do
próprio governo, que foram contaminando as negociações. Além da própria
conjuntura econômica. E ainda conseguimos terminar o ano com algumas carreiras
que não chegaram a fazer acordo. Estamos neste ponto. Qual a sua avaliação dessa
negociação em 2015? O que atrapalhou?
Foi uma situação muito difícil, porque entramos em recessão e, à medida que os
meses foram se passando, constatamos a queda significativa da arrecadação. Com
isso, o governo federal teve dificuldades de avançar mais na proposta salarial.
Tanto é que, ao final, alteramos a data do reajuste de janeiro para agosto de
2015 em função das dificuldades fiscais. É muito difícil chegar a bom termo em
uma negociação nessas condições. A conjuntura era desfavorável. Além disso, foi
piorando rapidamente ao longo dos meses de 2015. E isso foi impondo restrições
cada vez maiores para se chegar a uma proposta melhor para os sindicatos. Foi um
período em que a inflação também acelerou, em função do choque tarifário e da
desvalorização cambial, chegando a 10%,11%.
A entrada do ministro Levy, com uma orientação de política econômica mais
conservadora, não influenciou também?
Inflenciou. Mas, por outro lado, mostrou que a negociação estava consolidada
no governo, porque não houve em nenhum momento alguém que nos dissesse: “Olha,
parem de negociar!”
De todo esse trabalho de vocês, que questões ficaram consolidadas e já são
conquistas e direitos adquiridos dos servidores? E quais podem estar ameaçadas,
significando um retrocesso?
Eu não minimizaria o risco de retrocesso. E aí não é uma questão de vontade do
governo, porque eu acho ou porque eu gosto, é uma análise da realidade. Creio
que a maioria das forças políticas que, porventura, fizerem parte de um novo
governo, será contrária à negociação. Dentro do atual governo já existem muitas
forças contrárias. Nessa situação, a luta dos trabalhadores, dos servidores, das
entidades sindicais não será fácil. De certa forma, vamos voltar ao período
anterior a 2003. A luta será para sentar e negociar. O que vai se negociar já é
outra tarefa, que não é simples. Mas é claro que ninguém governa contra tudo e
contra todos. Contra os servidores, contra os sindicatos. A unidade das
entidades sindicais, se for possível, será um grande ativo para enfrentar essa
nova etapa. Há um risco de retrocesso no campo do diálogo, da democratização das
relações de trabalho, é um cenário que pode se concretizar, mas espero que não
se configure. Nós acreditamos que o caminho do diálogo é sempre o melhor
caminho.
A última mesa de negociação foi em um ambiente de instabilidade, como você
falou, com uma inflação que acabou surpreendendo, mas isso não evitou que uma ou
outra carreira tivesse um “algo a mais”. A carreira jurídica, a Receita Federal,
com a proposta de quebra do subsídio, por exemplo. Eu queria saber como você e
sua equipe de assessores enxergaram essa condução. Foi alguma orientação que
veio de fora da Secretaria? Qual a avaliação de vocês sobre a negociação?
Se fosse só a Secretaria, o Ministério do Planejamento, que decidisse isso,
provavelmente nós teríamos feito diferente. O que aconteceu é que qualquer
governo representa uma síntese de forças. Isso é normal e legítimo. Ocorre que
numa situação de enfraquecimento, por um conjunto de questões que todos nós
conhecemos, a força de algumas organizações, dentro do governo, cresce.
Refiro-me aos exemplos, que você citou. Sabemos que até o momento não acabou a
negociação, porque ela perdeu um elo de coerência no caminho. Em um contexto
desfavorável, a gente acabou fazendo o que foi possível, mas seria desejável uma
negociação mais coerente, lógica. Não estou reclamando, apenas constatando a
situação. Em condições mais favoráveis, posso te garantir, nós já teríamos
terminado o processo, que durou mais de um ano. Complicado, não?
Como presidente da Funcef há pouco mais de um mês, qual a sua avaliação da
tão divulgada crise dos fundos de pensão, com rombos, desvios de pensão? Até uma
CPI já foi instaurada. Para aceitar o cargo, você deve ter pensado um pouco,
não?
Os fundos de pensão são instituições muito interessantes. Eles existem, de um
lado, para assegurar as aposentadorias e pensões dos participantes que
contribuíram para os fundos. De outro lado representam um instrumento de
captação de poupança de longo prazo que pode financiar investimentos que
contribuem com o desenvolvimento de qualquer país, como fundos do porte da
Funcef, da Previ, da Petros. Desse ponto de vista, é uma criação engenhosa que
tem origem no mutualismo do século 19, que foi se sofisticando, e que no nosso
caso teve um crescimento forte, por conta das grandes empresas estatais, como o
Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, Petrobras, Correios, etc. É
importante destacar que houve um significativo aperfeiçoamento da regulação
dos fundos nos últimos anos.
E, agora, os resultados recentes estão sendo afetados pela conjuntura econômica
desfavorável. Estamos vivendo, no Brasil, um clima muito ruim, de caça às
bruxas, com acusações apressadas de que todo mundo é ladrão, um clima moralista
completamente irracional. Os resultados deficitários, que tecnicamente,
inclusive, tem outra denominação foram apresentados como “rombos”
aproveitando-se desse momento de irracionalidade. Mas se você for olhar as
regras de regulação desse mercado e a forma de governança dessas instituições,
com racionalidade, vai ver que são bastante sólidas.
Mas, afinal, não houve prejuízos?
Há, sim, uma questão complicada, e terá de ser revista rapidamente, que são as
metas atuariais, inatingíveis para países maduros. Como você vai conseguir
atingir uma meta de inflação mais 5,5% todo ano, durante 30, 40, 50 anos, quando
o país vai mudando seu perfil demográfico? Ou você ajusta essa meta à mudança
dos perfis demográficos da população e da capacidade de o país crescer, ou vai
se conviver com déficits recorrentes. Hoje, a meta é INPC mais 5,5%. No ano
passado, com a inflação a 11%, mais 5,5%, chegou-se a uma meta atuarial de 17%.
Como se atinge uma meta assim? Então, mesmo que você faça tudo certinho, tudo em
conformidade com as regras da regulação e da boa governança, que, insisto, os
fundos praticam e não vivêssemos uma crise econômica e a conjuntura
desfavorável que desvalorizaram os ativos, mesmo assim seria desafiador atingir
uma meta atuarial de 17%.
Como é que você deixaria de aplicar dinheiro em grandes empresas e na
infraestrutura, que era a bola da vez do investimento público e privado no
Brasil? Foram decisões racionais no contexto em que foram tomadas. Tanto é que
todos aplicaram: os fundos, os bancos privados, investidores daqui e do
exterior.
Você pode dar um exemplo de investimento que deu errado?
Vamos pegar o caso que talvez seja o mais emblemático atualmente: a Sete
Brasil, empresa que entrou em recuperação judicial, com alto endividamento e
incapacidade de gerar receita. É uma empresa que foi criada para construir
sondas para exploração do pré-sal. Os fundos de pensão investiram recursos na
Sete Brasil. Vão dizer: a Funcef aplicou errado, teve má gestão de recursos.
Neste caso, ou aplicaram errado ou emprestaram errado, a Funcef, a Previ, a
Petros, o Bradesco, outros bancos privados e públicos . Será que todo mundo
queria jogar dinheiro fora, no lixo?
É óbvio que quando se tomou essa decisão, em 2010, imaginava-se um cenário muito
mais favorável — o país crescendo, o petróleo a US$ 110. Naquele contexto era
defensável um olhar mais generoso para o futuro do que o que estamos vivendo
hoje, seis anos depois. No atual ambiente de irracionalidade perda virou
déficit, que virou rombo, que virou “roubo”.
Em pouco tempo de casa, como você vê a situação da Funcef?
O que vejo na Funcef — e sei que na Previ é igual, na Petros é igual — é um
modelo de governança muito sólido. Os fundos de pensão, hoje, estão funcionando
como instituições financeiras sólidas, com vários comitês de decisão, equipes
muito qualificadas. Estou há menos de 30 dias lá, já me reuni com diversas
equipes, e o nível de qualificação dessas equipes é muito alto, técnicos
experientes, preparados, que conhecem bem o mercado. Aliás, semelhante ao Banco
Central. Isso, de um lado. Do outro, você tem uma regulação rígida, que envolve
a CVM, a Previc, o Conselho Monetário Nacional, a Susep, sem contar os demais
órgãos de controle, como o Tribunal de Contas, a CGU. O problema é que você teve
alguns investimentos que não estão apresentando os resultados esperados. É o
caso da Sete Brasil como citamos anteriormente.
Infelizmente parte do atual debate público brasileiro está muito rebaixado.
Muitas vezes politizado de forma superficial, sem levar em consideração
argumentos técnicos. São casos públicos, mas eles não são consistentes. Se você
quiser fazer um trabalho sério para entender o que aconteceu — e neste caso vale
não só para a Funcef, vale para todos os fundos de pensão –, a queda do valor
dos ativos é do sistema e tem como causa principal a conjuntura econômica
adversa. Não é de uma ou outra fundação. E como estou lhes dizendo, em alguns
investimentos os bancos privados também tiveram perdas. Será que o Itaú, o
Bradesco, o Santander, grandes bancos, não têm um setor de avaliação de risco,
de conformidade? Claro que têm. Mas também erram. E é razoável que errem em
ambientes tão adversos. Ou no capitalismo só se acerta nos investimentos? A
indústria de fundos está sofrendo hoje um ataque perigoso, de credibilidade,
porque esses fundos são de longo prazo. As pessoas estão com medo, pensando se
suas aposentadorias serão pagas. Isso é um desserviço que diversos setores, com
outros interesses, fazem em relação às análises dos fundos de pensão.
No caso da Funcef, eu li isso em algum lugar, parece que ela está exigindo
uma contribuição adicional dos seus participantes. É isso mesmo?
Chamam-se planos de equacionamento. Vai-se cobrar um percentual dos
participantes, mas isso está na lei, é um plano imperativo quando os fundos
apresentam três anos de desequilíbrio. E notem que o desequilíbrio de um fundo
de pensão não é um desequilíbrio de caixa, é um resultado contratual projetado
no tempo.
Ou seja, para você manter aquele benefício lá no futuro, tem de botar um
aporte de dinheiro agora...
Exatamente. Pelas regras da regulação — e hoje, fundamentalmente, da Previc, e
das leis que existem (leis complementares 108 e 109, do governo do Fernando
Henrique, que regularam esse mercado) –, depois de três anos de déficit você tem
de fazer um plano de equacionamento, que é um plano de longo prazo. Você faz uma
série de cálculos sofisticados, com tábua de expectativa de vida, reserva
matemática, passivo atuarial, valor dos ativos, contabiliza tudo e faz a conta.
No caso dos participantes da Caixa Econômica Federal e da própria Funcef, será
um reajuste de 2,78%. A cobrança começará agora em maio. Se nada mudar, essa
quantia vai ser cobrada por 17 anos. Mas, se a economia brasileira se recuperar,
e os ativos valorizarem, o plano pode mudar favoravelmente aos participantes,
reduzindo a cobrança no futuro.
O patrocinador também entra?
O patrocinador participa junto. O participante entra com 2,78% e a Caixa
Econômica Federal, com 2,78%. A Funcef saiu na frente, por isso também foi
fortemente criticada na CPI dos Fundos de Pensão, porque, além do debate dos
investimentos, coincidiu com o equacionamento. Mas é uma imposição legal. Não
tem alternativa. Tem que fazer.
O VALOR DA NOTÍCIA NA ERA DIGITAL
LUIS HUMBERTO CARRIJO
A
imprensa, como praticamente todos os setores econômicos, sofreu o impacto da
tecnologia da informação que mudou a cara do mundo. A internet deu rapidez na
troca de dados, interferindo inclusive na nossa noção de tempo e espaço. Estamos
interconectados simultaneamente em dimensões globais, ignorando fronteiras,
franqueados para conteúdos do passado e do presente na velocidade de um clique.
Essas inovações democratizaram, em tese, o acesso das pessoas ao conhecimento e
mudou a forma de se consumirem notícias: a audiência agora quer tudo em excesso,
de maneira instantânea. Claro, os órgãos de comunicação tiveram que se ajustar
para atender um público, agora empoderado dessas inovações.
Adaptar-se a essa nova configuração de mercado deixou de ser uma opção para ser
imprescindível. Numa sociedade de consumo, continuar de portas abertas significa
gerar lucro. Muita gente se esquece de que os veículos de comunicação são também
empresas que trabalham com a lógica comercial. Sua função social de fortalecer a
liberdade de expressão, educar e provocar reflexão, promovendo de maneira
equânime diferentes pontos de vista, ainda é fundamento para a imprensa do jeito
que a conhecemos. Mas essa prioridade foi colocada em xeque em nome da
sobrevivência econômica com implicações na forma de se produzirem notícias.
As mudanças foram redesenhadas de acordo com a realidade do mercado: satisfazer
seu público e atrair o interesse dos anunciantes. Se a receita com propaganda
era antes responsável por cobrir 80% dos custos de produção da notícia, segundo
estudos de Ken Doctor, autor do livro “Newsonomics: Twelve News Trends that Will
Shape the News You Get”, pela primeira vez neste século, as receitas obtidas
pela circulação mundial de jornais foram maiores que as provenientes de
publicidade. Pesquisa anual da World Press Trends (Tendências da Imprensa
Mundial) mostra que, no ano 2014, os jornais, por exemplo, geraram US$ 179
bilhões em receitas de circulação e publicidade: US$ 92 bilhões corresponderam à
circulação impressa e digital, enquanto US$ 87 bilhões corresponderam à
publicidade.
O restabelecimento do equilíbrio na fonte das receitas não significa que o
modelo de negócio baseado no subsídio dos anunciantes ao conteúdo de notícias
tenha terminado. O novo cenário talvez revele uma crise na imprensa que perdeu
espaço com a fragmentação da mídia. Os grandes patrocinadores têm hoje um vasto
cardápio de plataformas e canais onde investir: Google, portais, redes sociais e
blogueiros.
De qualquer forma, o público continua no centro do interesse da indústria da
notícia, seja por ter se convertido na maior fonte de receitas, seja porque é
alvo de atração dos anunciantes. Essa centralidade produziu profundas
repercussões no valor da notícia. Para o conceituado jornalista britânico Peter
Oborne, ex-Daily Telegraph, a introdução da “cultura do clique” no qual o mérito
da reportagem está na quantidade de visitas on-line, e não na importância do
assunto, está consolidada. A imprensa, hoje diante de uma encruzilhada, foi
obrigada a servir a dois senhores em constante conflito: o mercado e a
sociedade. Suzana Singer, exombudsman da Folha de S. Paulo, enxerga uma saída,
nada fácil de se concretizar, para equacionar o dilema: “Transformar o que é
importante em interessante”.
Não apenas isso. O linguista francês Patrick Charaudeau aponta para mais uma das
mutações na cobertura noticiosa por conta da pressão dos acionistas por maiores
lucros. Ele explica que, às voltas de um problema de ordem econômica, os
veículos de comunicação precisam dirigir-se a um grande número de pessoas,
satisfazendo um público com diferentes graus de saberes. Daí, a necessidade de
se construir uma linguagem que desperte o interesse do maior número possível de
destinatários. Na busca pela amplitude da audiência, a imprensa buscou
desenvolver uma fórmula que simplificasse o texto jornalístico, sem perder a
clareza. Com a vulgarização do texto, passou-se a correr também o risco de o
conteúdo ser deformado.
A indústria da notícia continua experimentando maneiras de obter receita para
seu negócio. Com a sociedade cada vez mais móvel pelo uso de smartphones, a mais
nova fronteira são os conteúdos formatados para o Facebook. Fruto de uma
parceria com grandes grupos de jornalismo, como The New York Times, The Guardian
e NBC News, a rede social de Mark Zuckerberg lançou, em 2015, o Instant Article,
ou “Artigo Instantâneo”, que exibe reportagens mais elaboradas e multimídia no
feed de notícias dos usuários no smartphone. Para os órgãos de imprensa, esse
formato é vantajoso, porque podem vender ou incorporar anúncios nas matérias,
ficando com o faturamento obtido com publicidade.
Outra inovação com fins comerciais é o chamado Native Advertising, ou
“Publicidade Nativa”, que nada mais é do que uma forma de propaganda revestida
de reportagem que segue o mesmo padrão gráfico e editorial do veículo de
comunicação que o divulga. Ou seja, um determinado anunciante, por exemplo, paga
para um jornal escrever uma matéria positiva que cite a empresa anunciante ou
trate do segmento econômico em que ela atua, sem traços evidentes de propaganda.
O leitor será induzido a pensar que aquela reportagem patrocinada é isenta e de
interesse público. Logo, veremos conteúdos patrocinados encomendados por grandes
grupos econômicos envolvidos em corrupção.
Ao perseguir novas maneiras de lucrar com a venda de notícias, a imprensa pode
optar por métodos que não raro levam parte da opinião pública a achar que ela é
tendenciosa u parcial. Exemplo disso foram as manifestações de rua pelo
impeachment da presidente Dilma Rousseff. Por ser um assunto de amplo interesse
das pessoas, que dominou por meses as discussões em nosso ambiente social e de
trabalho, estimular o debate e o engajamento da audiência tinha mais a ver com o
interesse comercial do que o viés ideológico.
Era estratégico para os veículos manter esse público por mais tempo possível em
suas páginas on-line de notícia e, assim, atrair anunciantes. Uma das táticas
empregadas foi incentivar as pessoas a postarem fotos e comentários sobre os
acontecimentos.
Diante desse cenário e respeitando as regras do jogo, que é o mercado da
notícia, as organizações e entida-des sindicais deveriam começar a pensar também
por adotar postura mais efetiva e menos dogmática, uma vez que a imprensa
continua sendo a plataforma que mais consegue criar percepções sociais e
políticas, legitimar um discurso e formar a opinião pública. Esse novo
pensamento deve partir da premissa de que os órgãos de comunicação não
conseguem, sozinhos, produzir conteúdos relevantes em quantidade que atenda à
demanda sem a ajuda dos relações públicas e de seus clientes. Eles estão cada
vez mais dependentes de quem realmente constrói a agenda noticiosa: as fontes
de informação. As organizações devem deixar de priorizar as informações comoditizadas e passar a dar melhor tratamento a conteúdos, de forma a também
tornar interessante o que é importante e, se possível, conferir importância ao
que é apenas atraente.
O Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central entendeu essa tendência
no mercado da notícia há dez anos e procura estar à frente como referência
qualificada para as redações, mas sempre com o propósito maior de submeter toda
a ação de comunicação junto à imprensa aos interesses dos servidores do BC.
(*) LUIS HUMBERTO CARRIJO, jornalista, com pós-graduação em Comunicação
Empresarial na USP, é diretor-executivo da Rapport e assessor de imprensa do
Sinal.
MEMÓRIA
LIVRO REGISTRA LUTAS DO SERVIDOR DO BC
PUBLICAÇÃO QUE SERÁ LANÇADA EM JUNHO DOCUMENTA OS 23 ANOS DE HISTÓRIA DOS FUNCIONÁRIOS DO BANCO ANTERIORES À FUNDAÇÃO DO SINAL.
CONCENTRAÇÃO BANCÁRIA
A
saga dos funcionários do Banco Central do Brasil tem momentos memoráveis
de alegrias, vitórias e também frustrações e derrotas. Não foram poucos
os que dedicaram os melhores anos das suas vidas em prol de uma entidade
que os representasse. Faltava, porém, uma documentação escrita desta
história. Afinal, quem hoje ingressa no BC ignora a duríssima trajetória
dos companheiros que travaram suas lutas, mesmo com a ditadura militar
proibindo a sindicalização dos servidores. Essa imensa lacuna está sendo
preenchida com o lançamento do livro “Um Sinal na História”, o primeiro
volume de uma série inicialmente projetada até 2018, quando o Sinal,
promotor dessa publicação e um dos protagonistas do segundo volume,
completará 30 anos de existência. João Marcus Monteiro, coordenador do
projeto, conta que a ideia de narrar a história da entidade não é nova.
Paulo Roberto de Castro, importante personagem dessa época, chegou a
convidar alguém para assumir a tarefa, em meados da década de 1990. Com
a morte do saudoso dirigente, porém, em 2003, muita coisa se perdeu,
inclusive esse trabalho.
O assunto voltou a ter destaque em 2010, na Assembleia Nacional
Deliberativa (AND), realizada em Florianópolis. João Marcus Monteiro
propôs e, junto com Paulo Eduardo de Freitas, o primeiro presidente do
Sinal, defendeu a proposta da obra. A AND decidiu, então, que o Conselho
Nacional deveria assumir a tarefa.
Infelizmente, a ideia voltou a ficar no esquecimento, devido a outras
demandas do CN. Por esse motivo, João Marcus propôs à Regional RJ a
constituição de um grupo de trabalho, que se reuniu pela primeira vez no
final de 2013.
Era formado por Arlindo Soutelo Salgado Filho, Enio Franco Coelho,
Flávio Ramos, João Marcus Monteiro, Laerte Silveira Porto, Maria José
Ponciano, Marly Guedes e Rosimere Fonseca de Moura.
Entretanto, ocorreu uma mudança de foco: como o Sindicato foi fundado no
fim de outubro de 1988, a evolução dos movimentos políticos e
reivindicatórios anteriores a ele, isto é, 23 anos de história,
deixariam de ser contados. Os protagonistas desse período são os
funcionários, e não o Sindicato, pois este ainda não havia sido criado.
Daí o primeiro volume tratar-se da ”História dos Movimentos Políticos e
Reivindicatórios dos Funcionários do Banco Central”, e o nome do livro,
“Um Sinal na História”.
ABRINDO OS BAÚS
Já no início dos trabalhos, os integrantes do grupo perceberam que a
tarefa não seria fácil. Havia o receio de que não houvesse
documentação consistente para resgatar os primórdios dos acontecimentos.
Diante dessa dificuldade, a solução seria reavivar a memória dos
servidores mais antigos. “Havia algo de festivo nas nossas primeiras
reuniões, lembrar da época era uma alegria só”, relembra João Marcus.
Superada essa euforia, saíram à cata de funcionários de diferentes
regionais que tivessem documentos e participado ati vamente dos
primeiros movimentos de reivindicação.
Foi assim que a equipe teve acesso a preciosidades, como os arquivos pessoais de Sandra de Souza Leal, secretária do Sinal Nacional, e de José
Luiz C. Fernandes, funcionário aposentado. Ela forneceu os exemplares do
“Espelho”, in formativo da Asbac, e ele, a foto da capa do livro, com
destaque para o primeiro forno do BC onde eram incineradas as células
danificadas.
Com esse esforço compartilhado, eles foram reunindo um volume cada vez
maior de publicações de época, entrevistas e fotos. O acesso a esses
registros, no entanto, trouxe um imprevisto: algumas pessoas do Grupo da
História, responsáveis pela pesquisa, foram contaminadas por bactérias
presentes nesses acervos. Alguns tiveram problemas dermatológicos ou
complicações respiratórias. Tudo em função do manuseio desses documentos
antigos.
Felizmente, essas questões foram superadas. Todos os contratempos, por
mais difíceis que tenham sido, revelam o carinho que esse grupo teve
pelo trabalho e por sua própria trajetória de lutas nas entidades. João
Marcus, por exemplo, fazia parte da chamada “categoria isolada”: um
conjunto de funcionários que já entrou no BC sob o signo da
precariedade, pois foram admitidos, na segunda metade da década de 1970,
sem qualquer perspectiva de ascensão profissional e muitos assim ficaram
por volta de dez anos.
A insatisfação foi crescendo naquele segmento e em outros.
UNIÃO FAZ A FORÇA
Restrições absurdas, como não poder trabalhar de calça jeans, não
permitir abaixo-assinados, além de movimentos coletivos, como
assembleias, eram rigorosamente aplicadas. Isso tudo, no entanto,
acabou ajudando a unir ainda mais as pessoas, servindo também como
incentivo para a organização dos funcionários. Com o fortalecimento da
mobilização, os servidores começaram a pressionar a direção do BC para
efetivar mudanças na estrutura da categoria isolada e outras demandas. A
tática utilizada, em julho de 1978, foi engenhosa: como o regime militar
proibia qualquer tipo de reivindicação coletiva, um número expressivo de funcionários da categoria isolada encaminhou ao Banco
requerimentos individuais com reivindicações expressas, em texto padrão.
Somente um ano depois da entrega desses requerimentos, a diretoria do BC
deu o primeiro passo para atender às demandas da categoria isolada. Em
portaria publicada em junho de 1979, ficou estabelecido o acesso
daquele grupo a cargos de carreira, mediante prévia habilitação em
duríssimo concurso interno, e com vagas limitadas.
Apesar de significativa, a conquista não contemplava o conjunto de reivindicações desse segmento, mas deu aquele “gostinho de vitória” na boca
do funcionalismo. Além disso, a insatisfação dessas pessoas se unia à
demanda crescente de servidores dos demais quadros da instituição.
A luta estava só começando. Mas a galinha já estava pronta para chocar o
seu ovo. Literalmente.
O OVO, no caso, era o nome do jornal criado em 1979 por funcionários do
quadro de carreira e da categoria isolada da Regional de São Paulo. A
publicação foi diretamente impulsionada pelo movimento da categoria
isolada e, também, pela solicitação por creche, muito forte na época.
Mas havia, não pudemos nos esquecer, a vigilância implacável por parte
da direção do Banco. Por isso, os primeiros encontros dos funcionários,
organizados pelos idealizadores do OVO-SP, foram realizados
clandestinamente.
Ainda que essas precauções fossem necessárias, era importante garantir a
representatividade do jornal entre a categoria. Para tanto, os
organizadores começaram a promover reuniões abertas com ampla
participação dos funcionários. Em lugar de um conselho editorial devidamente nomeado, cujos integrantes poderiam ser perseguidos, o jornal
apontava, a cada edição, todos os participantes dessas reuniões abertas.
Mais uma jogada genial para driblar a repressão.
DRIBLANDO A REPRESSÃO
O
OVO-SP também foi fundamental para a realização do 1° Encontro Nacional
dos Funcionários do Banco Central (ENF), em Brasília, em fevereiro de
1980. Além de promover a iniciativa, os organizadores do OVO mobilizaram
as regionais do BC, convocando reuniões para discutir como seria a
participação de cada uma delas. A mais importante deliberação desse
encontro foi a ideia, já consensual na categoria, da criação de uma
Associação Nacional Livre, para consolidar a unificação nacional do
funcionalismo e eleger seus representantes junto à diretoria do Banco.
Apesar de bastante óbvia, é importante frisar que a proposta ganhava
corpo numa época em que os servidores continuavam proibidos de ter uma
representação classista nos moldes dos sindicatos tradicionais. Ou seja,
o bravo funcionalismo do BC continuava abrindo caminho na mata com
facão, lutando para chegar a um destino que lhe era negado alcançar.
Seja como for, em 16 de novembro de 1980, nasceu a União Nacional dos
Trabalhadores do Banco Central (UNTBC). Detalhe: no seu manifesto de
fundação, a UNTBC dizia-se parte integrante da construção de uma Central
de Trabalhadores no Brasil. Isso significa que o funcionalismo da época
já tinha consciência de que precisava se fortalecer dentro e fora dos
muros do Banco.
O desafio, internamente, era conquistar associados para uma entidade
classista. Em maio de 1981, a UNTBC congregava 903 filiados. Era
pouco, avalia João Marcus, levando-se em consideração que havia por
volta de 7 mil funcionários na instituição. Mesmo sem conseguir crescer,
a UNTBC permaneceu apoiando e colaborando com os movimentos dos
funcionários. Diante desse quadro, os olhos se voltaram para a
Associação dos Servidores do Banco Central (Asbac), porque nela todo
funcionário era filiado, quase que automaticamente, assim que ingressava
no BC.
Até então, a Asbac funcionava basicamente como um clube. Além de não
refletir as demandas coletivas dos servidores, oito dos 16 membros do
Conselho de Administração eram indicados pelo Banco — incluindo seu
presidente, que tinha o voto de minerva em casos de impasse. Falando
português bem claro, a associação era controlada pela direção do BC.
Para reverter a situação, surgiu o “Movimento por Democracia e
Independência na Asbac”. Convocou-se uma assembleia-geral extraordinária
para aprovar mudança no estatuto da associação que assegurasse a eleição
direta de todos os conselheiros. No dia 3 de maio de 1984, com 82% dos
votos, a Asbac, finalmente, começou a ter uma gestão democrática.
O passo seguinte seria transformar a Asbac em uma entidade
realmente representativa, independente do Banco, ainda que a sindicalização
dos servidores permanecesse proibida por lei. Para tanto, nova alteração no
estatuto se fazia necessária, a fim de que ela passasse a representar os
interesses de seus associados junto à Administração do Banco. Se aprovada a
mudança, a Asbac se transformaria, na prática, no sindicato da categoria.
Segundo Edison Cardoni, fundador da UNTBC, esse momento marca uma grande
inflexão nas lutas do funcionalismo do BC. Parte da categoria não concordava em
transformar a Asbac em entidade representativa por entender que, com o fim da
ditadura, o caminho do funcionalismo do BC seria a sindicalização em massa no
Sindicato dos Bancários. Outro grupo, igualmente significativo, seguia
defendendo a proposta da Asbac representativa. Nova assembleia extraordinária
foi convocada, em 1985, para decidir a questão. O primeiro grupo saiu vencedor,
mas ainda não havia consenso na categoria.
CAMINHO LIVRE
Aos poucos, ganhou força um sentimento de que era preciso uma entidade independente, representativa, capaz de selar a unidade dos servidores do BC. A direção
do Banco não aceitava que essa entidade fosse a Asbac. Para desviar o foco das
intenções, sugeriu a criação de uma associação dos funcionários, apresentando
um modelo de estatuto. O funcionalismo abraçou a ideia e o alterou, visando,
prioritariamente, seus interesses. Assim, o caminho da unidade foi consolidado
através da fundação da Associação dos Funcionários do Banco Central, em 1986.
Segundo Paulo Eduardo de Freitas, primeiro presidente da AFBC, a mobilização dos
funcionários foi favorecida pela abertura política e pelas discussões em torno
da nova Constituição. “A ditadura estava no começo do fim”, lembra. Os
movimentos sociais apressaram esse fim. A Assembleia Nacional Constituinte seria
o coroamento de toda essa mobilização. Após dois anos de trabalho, a nova
Constituição Federal foi finalmente pro mulgada, em 5 de outubro em 1988.
Para o funcionalismo, a nova Carta Magna foi uma bênção, por dois motivos.
Primeiro, a anistia política, que permitiu o retorno de 19 funcionários
demitidos em função da grande greve ocorrida no início daquele ano. Rosimere
Fonseca de Moura, brava lutadora, um dos 19 demitidos, e também integrante do
grupo que organizou o livro, estava entre os que tiveram seu reingresso na
instituição assegurado pela Constituição.
O outro motivo era o artigo 8°, que tornou possível a associação profissional ou
sindical também aos servidores públicos. Dessa forma, o caminho ficou livre para
que os servidores do BC pudessem, enfim, ter seu sindicato próprio. Sem perder
tempo — afinal, almejava-se isso há alguns anos –, foi realizada, em 28 de
outubro de 1988, a assembleia de fundação do Sindicato Nacional dos Funcionários
do Banco Central (Sinal).
João Marcus estava presente nessa assembleia. Ele resume tudo isso com uma frase
de duplo sentido, que todo mundo entende: “Enfim, o Sinal estava aberto.”
“Sinal Aberto”, diga-se, é o título sugerido do segundo volume dessa coleção. Um
belo nome para expressar a força e a dinâmica das lutas do funcionalismo do
Banco Central.

Foto da capa do livro com destaque para o primeiro forno do
BC onde eram incineradas as células danificadas.
NOTA DA REDAÇÃO. Na reportagem “Em defesa dos direitos ameaçados”, publicada na
última edição da POR SINAL, confundiu-se a atuação de duas importantes entidades
que tiveram participação nas lutas dos funcionários do Banco Central: a Asbac,
criada e financiada pelo BC, e que surgiu em 1966 como associação sócio
recreativa e previdenciária; e a AFBC, entidade independente, que desde a sua
criação, em 1986, lutou pelos direitos e pela unidade dos servidores do BC. A
história dessas organizações sindicais está contada, em detalhes, no livro “Um
Sinal na história”, que o Sindicato lançará em junho e sobre o qual fizemos a
matéria acima. Aos nossos leitores, pedimos desculpas pelo erro.
“FINTECHS” TIRAM O SONO DOS BANCOS
NO BRASIL, AS STARTUPS DE TECNOLOGIA JÁ SÃO
MAIS DE 400, DAS QUAIS CERCA DE 130 MONITORADAS DIRETAMENTE POR AGÊNCIA
DE EMPREENDEDORISMO E INOVAÇÃO.
CARMEN NERY
Exclusividade dos bancos e seguradoras, os serviços financeiros
entraram na mira das startups de tecnologias — as chamadas fintechs –,
deixando as instituições financeiras em polvorosa. Com estrutura mais
enxuta, tecnologia de ponta operando na nuvem e alcance ilimitado na
internet, essas empresas estão conquistando espaços cada vez maiores num
mercado tão disputado — movimentação monetária, emissão de cartões,
liberação de empréstimos, contratação de seguros, renegociação de
dívidas, concessão de crédito, educação financeira e gestão de recursos,
entre outros serviços.
Desde a crise financeira de 2008, quando surgiram, até hoje, calcula-se
que 1.500 fintechs tenham sido criadas no mundo. Estudo do banco de
investimentos Goldman Sachs, publicado ano passado na revista
britânica The Economist, apontou que essas empresas receberam US$ 4
bilhões de investimentos em 2013, número que triplicou no ano seguinte,
e a expectativa era de que alcançasse US$ 20 bilhões em 2015.
Se os investidores estão apostando alto nas fintechs é porque elas
conseguiram antecipar o futuro, seduzindo a geração que tira o sono
dos banqueiros: os millennials, jovens nativos digitais na faixa de 18 a
35 anos, que, em cinco anos, vão representar 50% da força de trabalho.
Aficionados por tecnologia, eles não parecem nem um pouco dispostos a
enfrentar a burocracia e as regras do sistema financeiro tradicional.
As fintechs os seduzem com serviços mais fáceis de usar, disponíveis 24
x 7 e, sobretudo, mais baratos.
A prova definitiva do poder das fintechs veio no ano passado, quando o
Lending Club — espécie de “Uber dos empréstimos”, que conecta, via
internet, pessoas que buscam dinheiro àquelas que queiram emprestar
(modalidade conhecida como pear to pear) — fez a maior oferta pública
inicial de ações do segmento de tecnologia. Captou US$ 800 milhões e
alcançou valor de mercado de US$ 8,5 bilhões, ficando na 15ª posição
entre 835 instituições financeiras americanas. Uma façanha, sem
dúvida, mas que incomoda menos pelas cifras e mais pelo sinal que traz
ao mercado.
No Brasil, as fintechs estão chegando, e hoje já são mais de 400, das
quais pouco mais de 130 monitoradas diretamente pelo Radar Fintechlab,
iniciativa da Clay Innovation, agência de empreendedorismo e inovação. O
Radar Fitenchlab está em sua 3ª edição mapeando empresas nas categorias
pagamentos, gerenciamento financeiro, empréstimos e negociação de
dívidas, investimentos, funding, seguros, eficiência financeira,
segurança, conectividade e bitcoin/blockchain. Alexandre Lara, CEO da
Clay Innovation, destaca como exemplos de modelos de sucesso a Verius e
a Magnetis (planejamento financeiro), a Guia Bolso e a Quanto Gastei
(educação financeira), a Kitado e a Quero Quitar (recuperação de
crédito), a Intoo e a Lendico (empréstimos), a Easy Crédito e a Bank
Fácil (concessão de crédito) e a Nubank (cartões).
Esta última é a estrela do setor, por oferecer cartão de crédito com
taxas 50% mais baixas que as de mercado e não cobrar anuidade. Em
janeiro, a empresa levantou R$ 208 milhões em investimentos numa
rodada liderada pelo Founders Fund em seu primeiro investimento na
América do Sul. A startup também contou com a participação de outros
fundos já investidores, como Sequoia Capital, Tiger Global Management e
Kaszek Ventures (maiores informações sobre essas empresas na matéria da
pagina 42).
SINAL AMARELO
Com foco na educação financeira, a Guia Bolso tem um modelo de negócios
que está trazendo preocupação aos grandes bancos. Trata-se de um
aplicativo de gestão financeira que já conseguiu que 1,7 milhão de
usuários dessem acesso aos extratos de suas contas correntes e faturas
de cartão de crédito. É que, ao baixar o aplicativo e começar a usar, o
cliente permite que a empresa acesse seus dados financeiros. Com base
nessas informações, o aplicativo monta relatórios sobre como a pessoa
pode cortar gastos, economizar e investir.
Fernando Freitas, gerente do departamento de Inovação do Bradesco, diz
que o setor está preocupado e discutindo se essas empresas do segmento
de personal finance manager (gestão de recursos) estão ferindo ou não a
regulamentação que rege as instituições financeiras. Para ele, a
legislação é clara: o banco é o proprietário dos dados dos clientes e
responsável pela guarda e pelo sigilo. “A discussão é o que ocorre se
houver uma invasão.
Quem será responsabilizado, o banco ou a empresa?”, questiona.
Para Ailton Santos, vice-presidente de Software da Hewlett Packard
Enterprise — provedor de tecnologia que atende aos grandes bancos –, há
ainda outra preocupação, mais relacionada a estratégias de negócios.
Embora hoje as fintechs não tenham escala para ameaçar as grandes
instituições financeiras, não é impossível que elas possam ser
adquiridas por um concorrente de maior porte, como o Banco Original, que
assim teria acesso a toda a movimentação dos clientes dos bancos.
O Banco Original é um uma instituição financeira brasileira privada,
controlada pela holding J&F Investimentos, com atuação nas áreas de
Corporate, de Agronegócio, e agora no varejo. Em 2013, iniciou
investimentos na construção do primeiro banco do Brasil que já nasce
100% digital, desenvolveu plataformas criadas a partir de centros de
pesquisa no Vale do Silício, nos Estados Unidos, e em São Paulo. É
pioneiro em oferecer abertura de conta pelo celular, sem a necessidade
de agências, filas e papéis. Foi idealizado pelo ex-presidente do Banco
Central Henrique Meirelles, presidente do Conselho da J&F Investimentos.
O que preocupa o mercado em relação às fintechs é que, pela sua própria
natureza, essas atividades e operações funcionam sem uma regulamentação
específica, embora ofereçam os mesmos serviços financeiros dos bancos.
Sem regras estabelecidas de funcionamento, como proteger os clientes,
como impedir operações fraudulentas? Mais uma tarefa para o Banco
Central, exatamente numa área em que está a descoberto: a fiscalização.
Nehemias Monteiro, analista do Banco Central, observa que o sistema
financeiro brasileiro é extremamente concentrado, e todas as ações em
que se tentaram desconcentrar e baratear os serviços acabaram
fracassando, à exceção das cooperativas de crédito. “As fintechs podem
ser uma forma de se reduzir a concentração. Faltam modelos que permitam
avaliar melhor o risco dos clientes e reduzir as taxas cobradas. As
fintechs podem oferecer modelos rigorosos de análise de crédito e
comportamento e taxas mais baixas”, acredita.
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TEMPOS MODERNOS
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BC ENTRA EM CAMPO
Até o momento, o BC regulamentou apenas o segmento de meios de
pagamentos pela Lei 12.865/2013. A opção do Banco é monitorar o
movimento das fintechs, sem criar entraves ao desenvolvimento da
inovação. A percepção é de que essas operações têm o potencial de
alterar o modelo industrial da cadeia,e isso pode impactar o sistema com
inovações disruptivas. A questão determinante será a escala. Se
alcançarem um volume expressivo, o risco se estabelece. “A escala é um
fator fundamental para se avaliar o risco sistêmico. Ainda não há um
volume que justifique um risco sistêmico, mas há o risco de fraudes e falências. Temos de avaliar a quantidade de recursos, o número de
usuários, a quantidade de operações e a forma de concessão de
crédito. Em todo o mundo ainda não houve registro de quebras. Além
disso, não há sinais de alavancagem com operações de crédito sobre
crédito. Todos os reguladores estão monitorando”, diz Marusa
Vasconcelos, chefe-adjunta da área de inclusão e educação financeira.
Ela explica que o Banco Central iniciou a regulamentação pelos segmentos
de meios de pagamentos porque esta atividade não está prevista na Lei
4.595, que regula o sistema financeiro, como sendo exclusiva dos bancos.
Além disso, já existia um universo grande de serviços digitais, como o
pagamento pelo celular (mobile payment), e sinais de que estavam ligados
à inclusão financeira e de pequenos negócios.
Quanto aos demais segmentos, o BC criou um grupo de trabalho com
representantes dos departamentos de acompanhamento bancário, regulação,
TI, planejamento e inclusão financeira. O grupo está encarregado de um
mapeamento e monitoramento contínuo das atividades que lhe dizem
respeito. “Com a nova legislação de arranjos de pagamentos, o Conselho
Monetário Nacional deu ao BC a prerrogativa de estabelecer a
abrangência, o volume e a natureza de negócios de arranjos de pagamentos
que não ofereçam risco ao sistema e, também, para disciplinar a dispensa
de licenças”, afirma Marusa.
EM NOME DA LEI?
Em relação às preocupações dos bancos com o acesso a dados dos clientes
por startups, como o Guia Bolso, Marusa diz que essa é uma das grandes
questões discutidas em todo o mundo. Ela explica que o dado pertence
ao cliente, mas os bancos têm o dever de preservar a privacidade, coisa
que as fintechs ainda não têm do ponto de vista regulatório. “Só que a
lei brasileira admite que a pessoa ceda o seu dado. Esse é um dos temas
de seminário que será realizado no Banco Mundial, em 26 de maio”,
esclarece. Quanto aos empréstimos pear to pear, a Lei de arranjos de
pagamentos impede que as instituições concedam crédito, que é uma
atividade exclusiva dos bancos, conforme previsto na Lei 4.595. “Hoje,
as empresas têm de se associar a um banco como correspondente. E no
caso da Nubank, a atividade que prática é uma das previstas na lei de
arranjo de pagamentos que precisam de licença. A empresa já requisitou o
registro e o processo está em andamento”, sinaliza Marusa.
Há, portanto, um consenso de que, por enquanto, as fintechs não oferecem
risco sistêmico porque não têm escala. No Brasil, a Nubank, fintech mais
bem-sucedida, conta com pouco mais de um milhão de clientes. Paschoal
Baptista, consultor de serviços financeiros da Deloitte, afirma que o
cenário no Brasil é diferente do que está ocorrendo lá fora, onde as fintechs rapidamente estão realizando a disrupção do modelo de negócios,
até pelo fato de a regulação ser mais fraca. “O Brasil tem uma regulação
forte que impede rápida disseminação”, analisa.
Baptista cita os empréstimos pear to pear de empresas, como Kabbage,
Lendico e Geru, que não foram permitidos no Brasil. A Geru teve de se
associar ao banco Bracci e a Lendico, ao BMG. O consultor diz não
enxergar risco sistêmico enquanto não houver volume. Como são empresas
digitais, o risco, se existe, é de segurança da informação. “Sempre que
há uma tecnologia nova, a segurança contra ataques cibernéticos vai
sendo construída”, adverte. Mas, para Alexandre Lara, CEO da Clay
Innovation, o fato de haver tantas inovações em diferentes nichos, a
responsabilidade é dividida e o risco, diluído. Para ele, se
bem-feito, a diversificação é benéfica para o sistema. Além disso,
muitas fintechs estão na vanguarda da segurança da informação com
tecnologias em patamares muito mais avançados que os dos bancos.
“Já há uma nova categoria de startups, conhecidas como regtechs, que
aplicam a inovação para ajudar a implementação de compliance e prevenção
à fraude e lavagem de dinheiro. O blockchain— tecnologiaque está por
trás das moedas virtuais, como o bitcoin— permite rastrear da primeira
à última utilização da moeda virtual e pode ser usado para registro de
valores ou de propriedade”, argumenta Lara.
A Deloitte realizou, para o World Economic Forum, um estudo de 180 páginas, que apontou cinco grandes tendências que vão transformar os
serviços financeiros e onde as fintechs estão atuando: justamente onde
há atritos dos clientes com os bancos, em que se exige menos capital.
“Um exemplo são as transferências de dinheiro entre países, um serviço
pelo qual os bancos cobram tarifas altíssimas, que não são
proporcionais ao valor a ser transferido. O modelo de blockchain vai
permitir transferências seguras, sem necessidade de um banco ou
cartório. O regulador tem sempre de analisar tudo para saber as
diferentes tendências”, conclui.
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MODELOS DE SUCESSO
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