Page 5 - Sinal Plural 12
P. 5
O mal da corrupção ARTIGO
VASCONCELO QUADROS | JORNALISTA
Dia destes conversava com um amigo holandês sobre conjuntura internacional. “Vocês, brasileiros, ainda
estão discutindo corrupção. No meu país, os desvios morais envolvendo o público e privado ainda existem,
mas em níveis suportáveis. O debate lá já evoluiu e o tema do momento é se existe vida após a morte”,
disse-me ele. Uma breve reflexão sobre o assunto mostra realmente que estamos atrasados: o Brasil se
modernizou, inseriu-se na economia internacional, mudou de um regime ditatorial para uma democracia,
mas não consegue derrubar a corrupção, que atinge índices alarmantes e endêmicos.
Uma pesquisa feita há dois anos pela Fundação Getúlio Vargas apontou que uma significativa parte do
PIB nacional, algo equivalente a R$ 150 bilhões, escorre anualmente pelos ralos da corrupção. Sabe-se, no
entanto, que um levantamento mais detalhado, que envolva com certo realismo os três entes federativos,
deve ampliar o volume de recursos públicos desviados.
O que a mídia vem mostrando não é novo. A malandragem percorre uma via de mão dupla entre as em-
presas que fornecem produtos e serviços ao governo e maus funcionários públicos. A maior parte desses,
de livre nomeação. A promiscuidade, o lobby e o inquestionável conluio são mais fortes que as bravatas de
um governo de esquerda, que no passado fez das denúncias e do combate à corrupção verdadeiro cavalo
de batalha. Hoje se vê que quase tudo era retórica. O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, quando
ministro do Planejamento, afirmava que, aproximadamente, 30% do orçamento são perdidos para a corrupção.
O governo age a reboque das quadrilhas de engravatados que, sem ao menos disfarçar, saqueiam os
cofres públicos pagando facilidades com propinas. Instituições como a Polícia Federal, Ministério Público,
Controladoria Geral da União (CGU), Tribunal de Contas da União ou mesmo a Advocacia Geral da União
(AGU) alternam suas ações entre momentos de investida contra o crime e a inércia. Atualmente exercem
o papel de “enxugadores de gelo” da República. Elas fazem parte do aparato estatal e deveriam ter maior
autonomia em relação aos governantes. Leis orgânicas para as entidades seriam um caminho.
Os altos níveis de corrupção – facilitados por um estilo político que prima pela governabilidade a qualquer
preço, mesmo que os parceiros não tenham qualquer compromisso com a moralidade - representam um
entrave para o avanço social. Eles só serão derrubados com uma reforma política profunda, que sepulte o
atual modelo, ainda baseado no “é dando que se recebe”. A implosão desse sistema, que tornou negócios
e política uma coisa só, é um imperativo que só o governo se recusa, por conveniência, a enxergar.
Focar a ação de governo na distribuição de renda, desprezando o combate cerrado à corrupção
com igual prioridade é um equívoco histórico. O longo e contínuo processo de corrosão moral nas
esferas políticas não tira apenas os recursos que faltam aos brasileiros que mais precisam do estado.
Ele conspira contra a democracia.
5

