Page 11 - Por Sinal 37
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A crise nos países europeus requentou um debate emblemático para os
economistas: qual o tamanho ideal do Estado e a política econômica mais
indicada para sair da beira do abismo? Países como a Grécia, que acumula
um rombo de £ 300 bilhões ou o equivalente a mais de R$ 780 bilhões,
têm preferido abater parte da dívida em acordos com os credores e com um
pacote de ajuda do Fundo Monetário e do Banco Central Europeu em troca
de austeridade fiscal e privatizações. Já a Islândia optou por uma saída
que, por ironia, cairia sob medida ao berço da democracia: a rejeição da
estatização dos prejuízos e a prisão dos responsáveis com o fortalecimento
da participação popular nas decisões

A crise explodiu na Europa no ano           ministros de finanças da Zona do Euro     público em Portugal, no fim de março.
passado. Uma a uma, as economias de         aceitaram ampliar o fundo de apoio        Em Paris, 9 mil pessoas saíram em
alguns dos principais países da Zona do     aos endividados para £ 800 bilhões –      passeata no bairro da Bastilha com
Euro foram sucumbindo ao peso das           quase R$ 2 trilhões. Em troca, os países  cartazes escritos “Já basta”.
dívidas: Grécia, Irlanda, Itália, Portugal  têm aceitado apertar o cinto, reduzir
e Espanha entraram em estagnação            os gastos públicos, enxugar a máquina         “Os países europeus que vão se
ou recessão. A França aparentemente         estatal e privatizar serviços.            curvar ao FMI e que desejam conhecer
resistiu melhor à crise, enquanto a                                                   o seu futuro não precisam de ‘bola de
Alemanha, que sentiu menos os efei-          Combater a doença                       cristal’. Basta conhecer a história eco-
tos, saiu fortalecida. As dificuldades já   e matar o doente                          nômica desastrosa da América Latina
haviam aparecido em 2009, porque o          Os resultados positivos têm sido len-     dos anos 1990”, reagiu o economista
setor público estatizou a dívida privada    tos, mas os negativos surgem com a        João Sicsu num artigo no portal Carta
contraída pelo sistema financeiro em        velocidade das más notícias. O desem-     Maior, na internet. “A Grécia, com sérios
empréstimos aos bancos americanos           prego na região já atinge 13 milhões      problemas de déficit e um aparelho
que deram o calote. O processo se           de pessoas. Só na Espanha, onde a         estatal desproporcional, corre o risco
agravou porque as famílias europeias        taxa de desemprego, de 23%, é a           de aprofundar o processo de recessão
vinham se endividando para alcançar         mais alta do continente, são 3 milhões    se limitar-se apenas ao corte de gastos
um modelo de consumo copiado do             de desempregados. Uma greve contra        públicos”, endossa João Sabóia, do
american way of life em que felicidade      as medidas de austeridade e as refor-     Instituto de Economia da Universidade
era sinônimo de consumo de produtos         mas trabalhistas em troca da ajuda de     Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
de última geração.                          £ 78 bilhões – R$ 190 bilhões – da
                                            União Europeia e do FMI suspendeu             Gastos públicos sempre têm peso
    A receita de quase todos os países      a circulação de trens, fechou portos e    significativo nas contas nacionais.
para sair da crise depende de um            paralisou a maior parte do transporte     John Maynard Keynes, defensor da
pacote de ajuda. No fim de março, os                                                  política econômica intervencionista
                                                                                      do Estado e um dos pais da macroe-

                                                                                      abril 2012  9
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