Page 17 - Por Sinal 37
P. 17

40% das receitas e pelo emprego de           Grã-Bretanha e Holanda. Os islandeses       uma retração esperada para toda a
7% da força de trabalho.                     trocaram o peixe pelo money market          Europa do euro.
                                             e se deixaram iludir pela sensação
    A esperança de vida está entre as        de que o sistema financeiro era mais            Dos três bancos nacionalizados, o
mais altas do mundo. A taxa de de-           sedutor do que o bacalhau.                  Estado manteve o controle de apenas
semprego, até a explosão da crise, em                                                    um, o Landsbanki (Banco Nacional).
2008, não chegava a 2%. Em 2007,                 Em 2008, quando o déficit comer-        Numa clássica conversão de dívida em
a Islândia ficou em primeiro lugar no        cial forçou à desvalorização da moeda       participação, os outros dois foram repas-
Índice de Desenvolvimento Humano             nacional em 50%, a inflação disparou e      sados a grandes credores internacionais,
do Programa das Nações Unidas para           as taxas hipotecárias e de crédito ficaram  que preferiram vendê-los a hedge funds
o Desenvolvimento (Pnud), à frente de        impagáveis. O estouro da bolha revelou      americanos, aceitando 2 ou 3 centavos
Estados Unidos, França e Reino Unido.        uma conta ainda mais surpreendente:         pelo valor de face de 1 dólar.
Dois anos depois, e apesar da crise, apa-    a dívida dos bancos superava em mais
receu em terceiro lugar na relação da        de dez vezes o PIB do país.                     A Islândia não deu um calote com-
ONU dos países mais desenvolvidos. O                                                     pleto. As dívidas foram contraídas por
PIB (Produto Interno Bruto) per capita           Resultado: ao quebrarem, os ban-        entidades privadas, e quem emprestou
estava entre os dez melhores.                cos carregavam US$ 75 bilhões nos           assumiu o risco de fazer mau negó-
                                             balanços – US$ 250 mil para cada            cio. Perderam bancos internacionais,
    Os indicadores foram garantidos          homem, mulher e criança da Islândia.        a maioria deles europeus, dos quais
pela política de bem-estar social do Esta-   Mais de um terço da população ficou         metade alemães. Extintas as esperan-
do, que manteve os cuidados de saúde         superendividada, 13 mil casas foram         ças de reaver os empréstimos à trinca
universais e o ensino superior gratuito,     confiscadas e dezenas de milhares de        islandesa, eles deram por perdidos US$
apesar da onda liberal que tomou conta       famílias entraram na pobreza.               63 bilhões.
do país na década de 1980. Por conta
dos reflexos da administração Margaret           O governo tentou impor um plano             “Para além do resultado final desse
Thatcher, na Inglaterra, a pesca fora        de reestruturação da dívida, mas aí         confronto, a Islândia mostra que é possí-
privatizada, os impostos reduzidos e os      a população achou que era demais.           vel pensar em soluções alternativas, que
mercados, desregulamentados.                 O governo caiu, foram convocadas            não é necessário salvar os bancos como
                                             eleições para uma Assembleia Consti-        um passo para quaisquer outras medidas
    O sistema bancário não escapou. O        tuinte e consultas populares em que a       e que há outro caminho que envolve
Kaupthing, o Glitnir e o Ice-save come-      população decidiu pagar a conta, mas        decisões não só econômicas, mas funda-
çaram uma corrida desenfreada para           não a ajuda do FMI.                         mentalmente políticas e democráticas”,
expandir as atividades dentro e fora do                                                  escreveu Eduardo Lucita, integrante do
país e impulsionaram o endividamento.            Depois de quatro anos, os reflexos      coletivo dos Economistas da Esquerda
O governo incentivou uma política de         são flagrantes. O país empobreceu e         no “Diário Digital”, do Chile.
casa própria garantida por empréstimos       tem hoje o mesmo tamanho que tinha
hipotecários de fácil acesso à popula-       em 2004. Apanhadas no contrapé pela             “O exemplo da Islândia pode se
ção em que as taxas eram vinculadas          crise, boa parte das empresas islandesas    propagar para outros países, mas de
à evolução dos preços, mas não aos           foi encampada pelos credores. Hoje,         forma mais conturbada, porque, neste
salários. O consumo foi estimulado           60% delas pertencem aos bancos. O           caso, tratava-se de um país pequeno e
com empréstimos de curto prazo. Para         desemprego subiu para 7,3% – ainda          com uma população mais homogênea”,
financiar todo esse festival creditício, os  assim, metade do da Irlanda, um terço       diz o professor Márcio Scalércio. “A
bancos foram adquirindo fundos do            do da Espanha, dois países também           maior lição da solução islandesa é que
mercado mundial, especialmente na            em dificuldades. Projeções indicam um       a resposta dos países à crise tem de ser
                                             crescimento de 2,5% em 2012, contra         política, não tecnocrática.”

                                                                                         abril 2012  15
   12   13   14   15   16   17   18   19   20   21   22