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40% das receitas e pelo emprego de Grã-Bretanha e Holanda. Os islandeses uma retração esperada para toda a
7% da força de trabalho. trocaram o peixe pelo money market Europa do euro.
e se deixaram iludir pela sensação
A esperança de vida está entre as de que o sistema financeiro era mais Dos três bancos nacionalizados, o
mais altas do mundo. A taxa de de- sedutor do que o bacalhau. Estado manteve o controle de apenas
semprego, até a explosão da crise, em um, o Landsbanki (Banco Nacional).
2008, não chegava a 2%. Em 2007, Em 2008, quando o déficit comer- Numa clássica conversão de dívida em
a Islândia ficou em primeiro lugar no cial forçou à desvalorização da moeda participação, os outros dois foram repas-
Índice de Desenvolvimento Humano nacional em 50%, a inflação disparou e sados a grandes credores internacionais,
do Programa das Nações Unidas para as taxas hipotecárias e de crédito ficaram que preferiram vendê-los a hedge funds
o Desenvolvimento (Pnud), à frente de impagáveis. O estouro da bolha revelou americanos, aceitando 2 ou 3 centavos
Estados Unidos, França e Reino Unido. uma conta ainda mais surpreendente: pelo valor de face de 1 dólar.
Dois anos depois, e apesar da crise, apa- a dívida dos bancos superava em mais
receu em terceiro lugar na relação da de dez vezes o PIB do país. A Islândia não deu um calote com-
ONU dos países mais desenvolvidos. O pleto. As dívidas foram contraídas por
PIB (Produto Interno Bruto) per capita Resultado: ao quebrarem, os ban- entidades privadas, e quem emprestou
estava entre os dez melhores. cos carregavam US$ 75 bilhões nos assumiu o risco de fazer mau negó-
balanços – US$ 250 mil para cada cio. Perderam bancos internacionais,
Os indicadores foram garantidos homem, mulher e criança da Islândia. a maioria deles europeus, dos quais
pela política de bem-estar social do Esta- Mais de um terço da população ficou metade alemães. Extintas as esperan-
do, que manteve os cuidados de saúde superendividada, 13 mil casas foram ças de reaver os empréstimos à trinca
universais e o ensino superior gratuito, confiscadas e dezenas de milhares de islandesa, eles deram por perdidos US$
apesar da onda liberal que tomou conta famílias entraram na pobreza. 63 bilhões.
do país na década de 1980. Por conta
dos reflexos da administração Margaret O governo tentou impor um plano “Para além do resultado final desse
Thatcher, na Inglaterra, a pesca fora de reestruturação da dívida, mas aí confronto, a Islândia mostra que é possí-
privatizada, os impostos reduzidos e os a população achou que era demais. vel pensar em soluções alternativas, que
mercados, desregulamentados. O governo caiu, foram convocadas não é necessário salvar os bancos como
eleições para uma Assembleia Consti- um passo para quaisquer outras medidas
O sistema bancário não escapou. O tuinte e consultas populares em que a e que há outro caminho que envolve
Kaupthing, o Glitnir e o Ice-save come- população decidiu pagar a conta, mas decisões não só econômicas, mas funda-
çaram uma corrida desenfreada para não a ajuda do FMI. mentalmente políticas e democráticas”,
expandir as atividades dentro e fora do escreveu Eduardo Lucita, integrante do
país e impulsionaram o endividamento. Depois de quatro anos, os reflexos coletivo dos Economistas da Esquerda
O governo incentivou uma política de são flagrantes. O país empobreceu e no “Diário Digital”, do Chile.
casa própria garantida por empréstimos tem hoje o mesmo tamanho que tinha
hipotecários de fácil acesso à popula- em 2004. Apanhadas no contrapé pela “O exemplo da Islândia pode se
ção em que as taxas eram vinculadas crise, boa parte das empresas islandesas propagar para outros países, mas de
à evolução dos preços, mas não aos foi encampada pelos credores. Hoje, forma mais conturbada, porque, neste
salários. O consumo foi estimulado 60% delas pertencem aos bancos. O caso, tratava-se de um país pequeno e
com empréstimos de curto prazo. Para desemprego subiu para 7,3% – ainda com uma população mais homogênea”,
financiar todo esse festival creditício, os assim, metade do da Irlanda, um terço diz o professor Márcio Scalércio. “A
bancos foram adquirindo fundos do do da Espanha, dois países também maior lição da solução islandesa é que
mercado mundial, especialmente na em dificuldades. Projeções indicam um a resposta dos países à crise tem de ser
crescimento de 2,5% em 2012, contra política, não tecnocrática.”
abril 2012 15

